Seleccionado e traduzido por Júlio Marques Mota
* Universidade Paris-Dauphine
O capítulo “trader louco ” da enciclopédia dos mercados financeiros acaba de ser enriquecido com uma nova entrada, a de Kweku Adoboli, que acabou de levar à perda de 1,7 mil milhões de euros ao banco suíço UBS.
Este estaria na origem de cerca de 7,33 milhares de milhões de euros de transacções não – autorizadas, que tinham escapado “à vigilância” da sua hierarquia.
PANTEÃO “DOS TRADERS LOUCOS “
No Panteão dos traders loucos, junta-se Jérôme Kerviel (Sociéeteé Génerale), Nick Leeson (Barings), Yasuo Hamanaka (Sumitomo) e alguns mais.
Apesar de que as somas perdidas são de tal forma enormes que nos fazem sonhar, isto não é um fenómeno novo.
O síndroma “de trader que fica apaixonado pela sua posição especulativa”, do trader que pensa ter razão contra todos, é uma constante na história dos mercados, em especial durante as fases de forte volatilidade e de bolhas.
Isto já custou a vida a muitas sociedades de negócio no mercado das matérias-primas. O desenvolvimento pelos bancos das suas operações sobre conta própria nada mais faz do amplificar o fenómeno colocando em evidência as lacunas dos seus controlos internos.
O que é mais inquietante, é que aqui, “o acidente” ocorreu sobre um novo tipo de produto financeiro, que tem tido um forte desenvolvimento: o Exchange Traded Funds (ETF) ou fundo de índices cotado.
1100 MIL MILHÕES de EUROS
Estes instrumentos financeiros reproduzem o comportamento de activos subjacentes: acções, índices, matérias-primas … Permitem a um investidor especular sobre um mercado sem ter directamente que investir numa acção ou um produto físico. Criados há uma vintena de anos, os ETF representam hoje em valor cerca de 1.100 mil milhões de euros.
Para além da sua complexidade, ilustrada pelos desaires de UBS, os ETF colocam um problema de fundo que não foi tratado tanto quanto eles puderam passar pelas malhas – bem largas e bem lassas- das agências de regulação.
Trata-se da natureza da relação entre o produto financeiro e o seu subjacente. Se tomarmos o caso dos ETF sobre as matérias primas, trata-se de posições sobre mercados a prazo ou então trata-se stocks físicos, ou até um pouco dos dois?
Sabe-se que os mais importantes ETFs no mercado de um ouro deteriam alguns milhares de toneladas de metal precioso. Recentemente, os ETF foram criados nos mercados de metais não ferrosos como o cobre, tendo tido como resultado congelarstocks suplementares sobre o de Londres, sobre o LME, cuja transparência não é a sua qualidade principal.
Os ETF são o exemplo típico de inovação financeira que, primeiro anódina, ou mesmo talvez útil porquetraz liquidez aos mercados – deixa aparecercom o seu uso possíveis derivas – eno caso presente, traz a esterilização de stocks de matérias primas, o que é grave.
O que não é um problema para o ouro, cuja vocação é a de ser armazenado, torna-se um problema para os outros metais e sê-lo-á mais ainda para os produtos agrícolas. Sem iraté à sua proibição parece-nos necessárioque estes sejam enquadrados e sejam levantadas barreirasdeontológicas – por exemplo, a proibição de deterstocks físicos – e o rigoroso o controlo das posições em “papel” de cada ETF.
Mas tropeça-se aqui sobre o vazio abissal das regulações europeias sobre a má vontade das autoridades britânicas que não querem matar a galinha dos ovos de ouro da City.
Kweku Adoboli está na prisão, mas a responsabilidade final é a das autoridades de mercado sobretudo em Londres, que confundem liberalismo e laxismo.
