O AMOR PELO VIOLONCELO – PAU CASALS E GUILHERMINA SUGGIA por clara castilho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pau Casals (1876 – 1973) nasceu em Vendrell, uma pequena cidade da Catalunha, começou a estudar formalmente violoncelo aos 11 anos, e os seus estudos foram patrocinados por elementos da realeza espanhola. Começou a sua carreira como solista internacional em Paris, aos 23 anos. Em 1914 fundou a Escola Normal de Música em Paris e  uma orquestra em Barcelona, actuando também  como maestro.

Durante a guerra civil espanhola, permaneceu exilado em França e, posteriormente recusou viver sob a ditadura de Franco, ficando, no entanto, a viver bem perto da sua terra, mas do outro lado da fronteira…Na segunda guerra mundial ajudou os refugiados da Espanha fascista. Recusou sempre tocar em países declaradamente com a vigência de ditaduras (União Soviética, em 1917, Alemanha em 1933 e Itália em 1935). Em 1950, aceitou participar no bicentenário da morte de Bach, no Festival de  Prades, onde tocou o seu arranjo da balada catalã “Canção dos pássaros”, como um protesto  à opressão que continuava a vigorar em Espanha.  Em 1958, juntou-se ao seu amigo, o filósofo Albert Schweitzer, num apelo à paz e desarmamento nuclear. E foi aos 95 anos que tocou o seu “Hino das Nações Unidas” em 1971, perante os membros da Assembleia das Nações Unidas”.

O famoso “hino” contra a opressão”:

Coerente com a sua posição, ficou-se em Porto Rico, em 1955, fundou o Festival Casals que ainda hoje existe, tendo mais tarde vindo a casar com uma portoriquenha e, posteriormente fundado a Escola Casals para aprendizagem da prática do violoncelo.

Revolucionou a interpretação de obras de Bach, com interpretações do violoncelo, instrumento que até então só servia como acompanhamento, a ser utilizado a solo. Encontrei algumas palavras que lhe são atribuídas:  “a música, essa linguagem universal maravilhosa, entendida por todos, deveria ser também uma fonte de melhor entendimento entre os homens. Por essa razão, quero fazer um apelo aos meus colegas músicos de todo o mundo, pedindo a cada um deles que coloque a pureza da arte a serviço da humanidade, pois assim estarão contribuindo para o surgimento de relações fraternas entre os homens”. E : “O Hino à Alegria da 9ª sinfonia de Beethoven tornou-se o símbolo do amor entre os homens. Eu sugiro, por isso, que toda cidade que dispõe de uma orquestra e um coro execute essa obra em um mesmo dia, transmitindo-a por ondas radiofônicas aos menores povoados e aos cantos mais distantes desse mundo, como uma nova oração. Uma oração pela paz, pela qual todos nós tanto ansiamos e há tanto tempo esperamos”.

  

Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia (1885-1950), filha de pai de ascendência italiana e espanhola, violoncelista no Teatro de S. Carlos e professor no Conservatório de Música de Lisboa e que lhe começou a ensinar violoncelo aos 5 anos. Vivendo no Porto, apareceu a tocar em público aos sete anos. Ela e sua irmã Virginia (3 anos mais velha), que tocava piano, eram convidadas para actuar no seio cultural portuense. Com apenas 13 anos, Guilhermina era violoncelista principal da Orquestra da Cidade do Porto, tocando também com o quarteto de cordas Bernardo Moreira de Sá. Em 1898, o pai conseguiu que ela tivesse aulas com o famoso violoncelista catalão Pau Casals. Podemos imaginar a repercussão destas lições, numa jovem de 13 anos, a estudar com um músico famoso, então com 22 anos…

 

Em Março de 1901 as duas irmãs atuaram no Palácio Real de Lisboa. Com 15 anos apenas a coroa portuguesa concedeu-lhe uma bolsa e ela foi estudar para a Alemanha, tendo sido acompanhada pelo pai. Aos 17 anos, Guilhermina  teve uma apresentação  no concerto comemorativo com orquestra Gewandhaus, onde foi notado o facto de ter sido a intérprete mais  jovem a actuar com a orquestra, para mais sendo solista e mulher. O seu êxito foi total e aqui começou o seu sucesso internacional e nacional.

É em 1906 que virá a tocar com Pau Casals, em Paris. Nesse mesmo ano começou a partilhar com ele a mesma casa, a Villa Molitor. São famosos os convívios do casal com pintores, músicos, filósofos e escritores. Em várias fontes são-nos referidos os seus passeios, os jogos de ténis, a pesca e o facto de tocarem até altas horas da madrugada.

Lembrou Casals, anos mais tarde, que tocavam juntos, “pelo puro amor de tocar, sem pensar em programas de concerto ou horários, em empresários, bilheteiras, audiências, críticos de música. Apenas nós e a música” (Kahn, 1970, 143) O romance com o músico famoso, encheu as páginas dos jornais. O compositor húngaro, Emánuel Moór dedicou-lhes o “Concerto para dois violoncelos”. Esta relação terminou 7 anos mais tarde, de forma abrupta e Guilhermina mudou-se para Londres, onde teve uma actividade profissional muito reconhecida. Voltou para o Porto onde se fixou,  casou e morou até ao fim dos seus dias.

 

Sobre Pau Casals foram publicados vários livros (Albert E. Kahn), Joys and Sorrows: reflections by Pablo Casals as Told to Albert E. Kahn, Simon and Schuster, 1970; David Blum,  Casals and the Art of Interpretation, Holmes & Meier, 1977; Casals, Pablo, Song of the Birds: Sayings, Stories, and Impressions of Pablo Casals, Robsons Books, 1985; J.M.Corredor, Conversations With Casals, Hutchinson, 1956; Kirk, H. L, Pablo Casals: A Biography, Holt, Rinehart, & Winston, 1974;  L.Littlehales, Pablo Casals, Greenwood, 1970; A. Quintana, Pablo Casals in Puerto Rico, Gordon Press, 1979; B. Taper, Cellist in Exile: A Portrait of Pablo Casals, McGraw-Hill, 1962.

Guillermina Suggia tem inspirados vários escritoires portugueses (Mário Cláudio,  Guilhermina, INCM, Lisboa, 1986; Fátima Pombo, Guilhermina Suggia ou o violoncelo Luxuriante, edição português / inglês, Fundação Eng.º António de Almeida, Porto, 1993 e  A Sonata de Sempre, Edições Afrontamento, Porto, 1996, Isabel Millet, A Dama do Castelo, 2011). Existe um blog – http://suggia.weblog.com.pt/ mantido por Virgílio Marques e Catarina Campos.

 

3 Comments

  1. Era muito miúdo e lembro-me de ter ido assistir a um concerto da Guilhermina Suggia , meu pai trabalhava (num lugar modesto). Não me lembrava praticamente de nada (apenas de que o concerto foi dado em honra de uma esquadra inglesa). Milagre da internet – acabo de confirmar que o concerto (Pensava ser mais novo, mas afinal já tinha oito anos. ). E não adormeci – tocou autores portugueses do Século XVII. Já tinha estado antes no teatro, mas este espectáculo fascinou-me e não adormeci porque, para além da música, havia muita coisa para admirar. Uniformes de gala, vestidos sumptuosos … Guilhermina Suggia foi uma mulher de grande valor. De Pau Casals nem é preciso falar – um génio. Bom trabalho, Clara – é preciso trazer à luz os nossos diamantes.

  2. Vamos lá ver se agora sai completo -Era muito miúdo e lembro-me de ter ido assistir a um concerto da Guilhermina Suggia, no Teatro de São Carlos onde meu pai trabalhava (num lugar modesto). Não me lembrava praticamente de nada (apenas de que o concerto foi dado em honra de uma esquadra inglesa). Milagre da internet – acabo de confirmar que o concerto foi pouco mais ou menos quando calculava.(Pensava ser mais novo, mas afinal já tinha oito anos. ). E não adormeci – tocou autores portugueses do Século XVII. Já tinha estado antes no teatro, mas este espectáculo fascinou-me e não adormeci porque, para além da música, havia muita coisa para admirar. Uniformes de gala, vestidos sumptuosos … Guilhermina Suggia foi uma mulher de grande valor. De Pau Casals nem é preciso falar – um génio. Bom trabalho, Clara – é preciso trazer à luz os nossos diamantes.

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