25 DE ABRIL – FERIADO, ATÉ QUANDO?

 

 

O João Machado, fazendo o balanço a todas as memórias aqui desfiadas, a todos os momentos evocados, pergunta: 25 de Abril vai continuar a ser feriado. Por quanto tempo? Diz ele:

 

É óbvio que o quinteto Passos/Portas/Gaspar/Cristas/Álvaro, e mais alguns, não acabou com o feriado 25 de Abril por temer uma reacção forte de vários quadrantes. Essa reacção talvez dificultasse que lá fora continuassem a dizer que em Portugal todos concordam com as “reformas”, tal como fez o digno comissário europeu OliRehn, na sua última visita ao nosso país. Assim o feriado mantem-se, por enquanto.

 

O pior é que as melhorias introduzidas graças ao 25 de Abril estão a desaparecer uma a uma. Já não restam muitas. Entre elas ainda se conta a liberdade de dar a público um blogue como A Viagem  dos Argonautas. Na altura do 25 de Abril nem se sonhava com blogues, e a internet estava nos primórdios. Assim, continuamos a falar…

 

Há quase um ano, o quinteto acima referido, e mais alguns,ganhou a maioria absoluta numas eleições disputadas sob o signo de uma grave crise que assola a Europa e, em particular, os seus países periféricos, isto é, os países da Europa com menor poder económico.

 

Quando, há vinte e seis anos, Portugal  entrou para a então CEE, o nosso rumo ficou traçado. A nossa oligarquia nacional respirou fundo, e aliou-se á burocracia de Bruxelas para perpetuar o seu poder. Levanta-se agora uma grande questão: será que o destino de Portugal é indissociável da Europa? E essa questão está intimamente, inexoravelmente, ligada a outra: qual o futuro da Europa?

 

Os governantes da União Europeia são os representantes das oligarquias dos países membros. Ao lado montou-seuma administração muito poderosa e implacável, que obedece cegamente à ideologia dos mercados. O Parlamento Europeu, com poderes limitados, e muito vigiado pela Comissão Europeia, é o único órgão directamente eleito pelos cidadãos dos vários países. Mas tem as limitações próprias da democracia representativa, e está sob o controlo do aparelho burocrático da UE.

 

As reacções de Merkozy, quando Papandreou se atreveu a propor um referendo no seu país sobre as medidas que lhe queriam impor, deixaram bem claro que a independência dos chamados países periféricos chegou ao fim. A Grécia obedeceu apesar da revolta do seu povo. Em Portugal todos sabemos que não será a dupla Passos/Seguro que irá enfrentar nem a oligarquia nacional, nem a burocracia de Bruxelas.

 

A Europa, após o erro que foi a reunificação alemã (sobretudo, da maneira como foi feita), nunca será a Europa dos cidadãos. A este respeito, recorde-se o que dizia um homem de direita, o General de Gaulle, que preferia atrair a Rússia á Europa, prioritariamente à reunificação alemã. Ou as reticências deGuntherGrass na altura. Portugal aderiu apressadamente à Europa, sem sequer permitir uma reflexão a este respeito, invocando os responsáveis da altura a necessidade de consolidar a democracia. O fantasma de Salazar e o papão do comunismo terão pesado na cabeça de muita gente, na altura. Mas como podem os responsáveis da altura manifestar surpresa pelo estado actual de coisas?

 

A economia portuguesa tem de passar a ser a economia de todos, o meio pelo que sobrevivemos, em condições de igualdade. Ser aquilo que o 25 de Abril não conseguiu até agora, a economia para todos, a democracia económica. Deixar de estar sujeita a malabarismos financeiros, de apostar em hipotéticas exportações, como outrora se apostava em minas de ouro, e organizar a produção de modo a enfrentar as necessidades prioritárias, de modo equilibrado. Portugal, como qualquer outro país, não pode viver em autarcia. Mas tem dar prioridade aos interesses do seu povo, não dos exportadores/importadores, ou da banca, ou do lobby da construção civil, ou de oligarcas à procura de um emprego em Bruxelas ou em Berlim, ou que aspiram a um curso na Sorbonne.

 

Simbolicamente, acabaram com o feriado no Primeiro de Dezembro, e o 25 de Abril está muito ameaçado. Continuamos a ser uma República, apesar de também terem acabado com o 5 de Outubro.  Mas para os portuguesesnão serem, como já foram no passado, um povo de párias, é essencial a recuperação dos elementos que lhe estão associados. Quanto ao patriotismo, que é um sentimento que para alguns assenta em ideias de exclusivismo, deve, é certo, passar a ser visto numa base de solidariedade com todo o nosso povo, e não de aclamação de algumas figuras ilustres, ou de celebração de acontecimentos passados. O nosso povo precisa de acreditar em si, e de representantes que o respeitem, e não tratem os cidadãos como mero figurantes, ou mesmo como empecilhos, a quem se recomenda que emigrem.

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