E DAQUI PRÁ FRENTE?

 

 

 

 

01h30 – A Junta de Salvação Nacional – de que fazem parte o capitão-de-fragata António Rosa Coutinho, coronel Carlos Galvão de Melo, general Francisco da Costa Gomes, brigadeiro Jaime Silvério Marques, capitão-de-mar-e-guerra José Pinheiro de Azevedo e o general Manuel Diogo Neto, ausente do Continente – apresenta-se à Nação, através da Rádio Televisão Portuguesa, lendo uma proclamação e tendo o general António de Spínola como Presidente.

 

 

 

E agora como vai ser? De tudo o que conquistámos em 25 de Abril de 1974 já quase só nos resta uma democracia formal. Damos a palavra a um capitão de Abril, ao argonauta honorário Coronel Carlos de Matos Gomes.

 

Diz ele «Daqui p’rá frente …»

 

Estamos aqui, nesta situação. Sabemos isso: estamos aqui. Também conhecemos algumas coisas sobre o como chegámos aqui. Eu tenho as minhas razões, que são também as minhas propostas para daqui p’rá frente: os que gostam do 25 de abril nunca se entenderam sobre o que queriam que o 25 de abril fosse, os que não gostam e sabiam desde o primeiro momento, como sabem exactamente hoje o que o 25 de abril não fosse e estão muito perto de conseguir, excepto reconquistar as colónias. Como nunca nos entendemos (os que gostam do 25 de abril), cada um içou bandeira e acantonou-se no seu 25 de abril. Cada um, cada grupo, cada partido no seu abrigo, sem distinguir amigos de inimigos, ou fazendo de todos os outros igualmente inimigos. Orgulhosamente sós, rodeados de inimigos. Sem compromissos. Sendo o caso, morriam (e morrerão) todos virgens do pecado da aliança e, obviamente, da traição.

Agora, que batemos no fundo, ou estamos em vias disso, devemos escolher entre entrarmos em insurreição geral, de novo cada um por si e contra todos, dentro da ideia bíblica de criar o caos para estabelecer uma nova ordem, (exatamente, uma nova ordem), ou entendermo-nos à custa de compromissos e cedências – o meu plural quer significar tão só que o entendimento deve englobar todos os que defendem uma sociedade com as essenciais liberdades individuais respeitadas e garantidas, socialmente justa, assente na dignidade da pessoa e do valor do trabalho, integrada num espaço cultural e civilizacional onde esses valores estejam no centro das politicas internas e das suas ações externas.

 

Daqui p’rá frente é o que me importa. E o que me importa é contribuir para encontrar soluções em vez de culpados. É saber o que é possível e que consensos são necessários para o alcançar e não chorar pelos sonhos desfeitos e alinhavar mais uns tantos. Daqui p’ rá frente não me interessam análises nem crucificações! Não me interessam mais análises, quero remédios!

Daqui p’ rá frente, quero saber se é possível contar com os velhos carroções e galeras que nos trouxeram até aqui, ou se temos de construir outros. Isto é, estas formações políticas e sociais têm reforma ou algum conserto, ou é necessário e urgente inventar outras? Em claro, vamos continuar com estas bestas (no sentido de animais de tiro e de sela e não com aquelas que nos entram em casa pelos ecrãs) que nos derrubaram aqui, ou vamos arranjar umas que nos ajudem a sair deste pântano?

 

 

 

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