A NOITE E A MADRUGADA

 

 

 

c. 06h00 – O Quartel-General da Região Militar de Tomar (QG/RMT) ordena às unidades que passem ao estado de prevenção rigorosa. Mas já há algumas horas que forças de Tancos (EPE), de Santa Margarida (Ccaç 4241 e 4246) e de Santarém se movimentam em apoio do MFA. – A companhia do GACA 2 de Torres Novas, na qual ocorrera uma viragem da situação (de força inimiga passa a apoiante), ocupa o Quartel e resiste a todas as ameaças, apesar de se manter sem contactos com o Posto de Comando do MFA até às 20h00 do dia 26.

 

06h05 – O alferes miliciano David e Silva chega ao Terreiro do Paço comandando um pelotão de AML/Chaimites reforçado com Panhards do RC 7, favorável ao Governo, mas adere imediatamente ao Movimento, colocando-se às ordens de Salgueiro Maia. A mesma atitude será tomada por dois pelotões do Regimento de Lanceiros 2

(RL 2) que guardam o Ministério do Exército, à excepção de sete elementos que virão a possibilitar a fuga aos membros do Governo aí refugiados.

 

06h10 – O ministro do Exército pede ao general da FA Henrique Troni para “mandar dois aviões sobrevoar o Terreiro do Paço”.

 

06h50 A bateria de obuses do Regimento de Artilharia Pesada 2 de Vila Nova de Gaia toma posição em ambas as entradas da Ponte da Arrábida, no Porto, dando acesso unicamente às «forças amigas» (do MFA).
– Uma força do RL 2, comandada pelo tenente Ravasco, tenta, sem êxito, recuperar o QG/RML

 

 

Por esta madrugada, entre 24 e 25, entre a longa a noite e a luminosa manhã, andava o argonauta António Gomes Marques, que traz muito que contar:

 

Naquela época, era hábito meu frequentar, quase semanalmente e, às vezes, mais do que uma vez na mesma semana, os camarins do teatro em que Costa Ferreira e/ou Rogério Paulo estivessem a trabalhar, onde discutíamos o futuro do Mundo, conspirávamos e falávamos de literatura, filosofia, mas sobretudo de teatro e de política.

 

Lembro-me como se fosse hoje de que naquele 24 de Abril estive desde o início do espectáculo e até ao seu final no camarim do Rogério Paulo, então a trabalhar no Teatro Maria Matos, o mais recente teatro português, inaugurado em 22 de Outubro de 1969, sob a direcção de Igrejas Caeiro, com a peça «Tombo no Inferno», de Aquilino Ribeiro, não me recordando do espectáculo em que, naquele momento, os meus amigos participavam.

 

As conversas, sobretudo depois de 16 de Março, iam sempre bater no mesmo: a queda do fascismo está por dias, afirmação que se tornou convicção de muitos de nós. Em que dia precisamente, nenhum de nós sabia, embora o Rogério, militante que era do Partido Comunista, tivesse a vaga esperança de o vir a saber, mas não soube.

 

Lembro também que, naquela noite, apareceu um outro amigo do Rogério que ele me apresentou mas de que não recordo o nome (jornalista?) e lembro também que o Rogério fez uma referência ao José Rebelo, jornalista português –curiosamente nascido a 25 de Abril, mas de 1945!- na altura a trabalhar num dos jornais que para nós era uma referência: Le Monde.

 

Saí do teatro depois da meia-noite, já portanto em 25 de Abril, e fui a pé até à Praça de Espanha, desviando-me no caminho de algumas poças de água nas avenidas; dali segui para a Estrada do Desvio, no Lumiar, onde então morava, também a pé, chegando naturalmente tardíssimo a casa, ainda hoje não conseguindo encontrar explicação para tal caminhada. Sei é que por esta razão não cumpri um dos hábitos que tinha na época e que era ouvir a Rádio Renascença depois da meia-noite; mesmo que tivesse ouvido «Grândola, vila morena» não teria sabido o que estava por detrás de, àquela hora, passar a canção do meu saudoso amigo Zeca Afonso; não adivinhei que às 3,h30 a porta de armas da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, onde fiz a recruta do serviço militar obrigatório, se abriria para dar passagem à coluna comandada pelo homem que para mim simboliza os valores positivos do 25 de Abril, Salgueiro Maia; também às 4h26 da manhã estava já a dormir e por isso não ouvi o Joaquim Furtado a ler «Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas (…)»; lembro que acordei antes da 6h30 e deu-me para ligar o rádio e, surpresa das surpresas, lá estava o Zeca a cantar, o Adriano Correia de Oliveira, o Fanhais, o José Mário Branco, …

 

Espantado com tanta fartura perguntava a mim mesmo o que teria acontecido, «ai que estes gajos da rádio vão todos presos», até que ouvi o Luís Filipe Costa a ler o comunicado do Movimento das Forças Armadas. Acordei de imediato a mulher e, às 8h00, já de banho tomado e vestido, «obriguei» a Otília a acordar o Costa Ferreira -«Não me atrevo a acordar o Senhor Dr.», «Não há problema, Otília, acorde-o e ponha-o a ouvir a rádio; se ele se zangar ao acordar, diga que fui eu que a isso a obriguei». Depois fui para a rua e o que se seguiu só na primeira semana dava para um volumoso livro.

 

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