Diário de bordo de 27 de Abril de 2012

 

Nas vésperas do Regicídio alguém terá dito que D. Carlos, estando à beira de um barril de pólvora, não se coibia de fumar e de deitar para onde calhasse a ponta ainda acesa do charuto . Até que acertou no barril… Era uma metáfora pouco subtil, mas referia-se à indiferença com que o rei avaliava a oposição, dizendo em entrevistas o que bem entendia, não evitando escândalos, ostentando um despesismo que fornecia à hábil propaganda republicana argumentos demolidores. Com uma taxa de analfabetismo que rondava os 80%, a demagogia andava à solta. O termo não tinha a carga pejorativa que hoje tem – «grande demagogo» significava «excelente orador». Não vaticinamos magnicídios nem comparamos a situação política actual com a de 1910, nem os actuais governantes aos de então  Cavaco não é comparável a D. Carlos, nem Passos Coelho a João Franco. Porém, este executivo, com a arrogância que só uma profunda ignorância permite, despreza todos os sinais que estão a ser dados e  insiste na agressão económica contra os mais desfavorecidos. E acompanha-a com declarações inconvenientes.

 

O coronel Vasco Lourenço pôs em causa a legitimidade de quem como presidente da República, é eleito por 25% do eleitorado; o mesmo ocorre com os deputados. A questão central, se queremos resolver o problema em democracia, situa-se na urgência de uma revisão constitucional. Este sistema, forçando o desinteresse dos cidadãos, falseia os resultados eleitorais e coloca o poder à disposição de gente que mais não faz do que servir os interesses dos grandes grupos económicos. Soa mal, parece linguagem panfletária, mas não há outra maneira de o dizer em poucas palavras. O filme do realizador Jorge Costa que apresentaremos em VAMOS AO CINEMA, “Os Donos de Portugal”, explica de forma eloquente como, desde há mais de um século, com todas as alterações políticas que ocorreram, o País é dominado pelas mesmas famílias. A luta entre os dois partidos do bloco central é apenas um reality show com um nível cultural semelhante aos da TVI – mas que pagamos muito caro, principalmente tendo em conta a má qualidade dos actores.

 

E esta gente que tomou o poder, beneficiando do mau desempenho do executivo anterior, passará sem que a história retenha os seus nomes, pelo que precisa urgentemente de protagonismo.  Há dez anos, Passos Coelho  participou no casting do musical My Fair Lady. Filipe La Feria não o aprovou e foi pena, pois deve ter sido esse fracasso teatral que o atirou para a política. A culpa do que estamos a passar é do La Feria. Mas Passos Coelho não devia ter desistido tão depressa – na TVI não teriam sido tão exigentes. Estaria bem melhor nos «Morangos com Açúcar»…

 

Sobretudo com mais protagonismo,

 

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