A noite passada, no nosso blogue A Viagem dos Argonautas passou um filme, aliás um documentário, Os Donos de Portugal. Dá uma visão de como a vida económica do país tem sido dominada por um conjunto de famílias, com algumas entradas e saídas, praticamente de há cem anos a esta parte. E que esse domínio tem sido mantido graças aos laços íntimos que têm mantido com o estado, desde essa altura. Aborda-se ainda o problema de como este domínio constitui um travão para o crescimento e o desenvolvimento do país.
O documentário Os Donos de Portugal é a transposição para o cinema do livro do mesmo nome que foi publicado pelas Edições Afrontamento em 2010, de autoria de cinco elementos com responsabilidades no Bloco de Esquerda. O facto de a sua génese estar ligada a um partido político não afecta o seu interesse principal: abordar e explicar de um modo desassombrado um tema tão importante como a história económica portuguesa recente. Olhar para este assunto sem peias é indispensável para compreender a realidade portuguesa actual. O livro e o documentário são apenas uma etapa para um longo caminho a percorrer. Não é por acaso que o livro foi dedicado a João Martins Pereira (1932 – 2008), engenheiro químico de formação, que foi Secretário de Estado da Indústria no IV Governo Provisório, jornalista, ensaísta, grande estudioso da história da indústria em Portugal, colaborador da Seara Nova e de O Tempo e o Modo e autor de livros como Alguns Aspectos do III Plano de Fomento (1969), Pensar Portugal Hoje (1971), Indústria Ideologia e Quotidiano (1974), No Reino Dos Falsos Avestruzes (1983), Para a História da Indústria em Portugal (2005), e outros.
João Martins Pereira é pouco falado hoje em dia. Nunca fez o circuito dos colóquios e das televisões, como assinalou alguém, salvo erro, Francisco Louçã. Obviamente não era querido da nomenklatura que a oligarquia dominante mantém à frente da televisão e da comunicação social em geral. Em No Reino dos Falsos Avestruzes escreveu este trecho, sobre a iniciativa privada, na nota 14 do capítulo O Pântano Democrático:
… É certo que os detentores do capital, entre nós, sempre foram muito mais propensos à especulação (não apenas imobiliária) e à “multiplicação fácil do dinheiro” que ao investimento produtivo. O que sucede é que nos últimos anos, tem sido dado um sobre-estímulo a esta atitude: nunca a especulação, o contrabando, a exportação ilícita de capitais foram tão florescentes. Mesmo os menos ousados vêem no depósito a prazo ou nos títulos uma remuneração francamente mais cómoda do que o risco de um investimento. Aquelas exigências de apoio do Estado são, em grande parte, meros alibis.
Isto foi escrito em 1983. Podiam-se fazer outras citações. Basicamente os problemas continuam a ser os mesmos. Os avisos de João Martins Pereira não foram escutados.

