“O 25 de Abril italiano”
A festa da Libertação da Itália, a grande festa da Resistência italiana ao nazifascismo, chega neste 2012 ao seu 67° aniversário; e todo o país a celebra num tom de justa exaltação. Certamente o ambiente atual da vida nacional pouco tem a que ver com a tomada de consciência daquela inicial, porque as transformações vividas nesses tantos anos decorridos desde 1945 nem sempre levaram a manifestações correspondentes ao alto teor cívico e moral da revolução vitoriosa.
Nesses sessanta e sete anos a vida italiana passou por muitas mudanças, mudanças essas que conduziram o país a colocar-se como a quarta economia da Comunidade Européia, conquistando assim uma vida de serenidade material para a grande maioria de seus cidadãos. Igualmente a histórica vitória revolucionária levou a Itália a organizar-se politicamente, a partir de 1945, com um quadro político constituído de partidos de fortes estruturas, como o Partido Comunista Italiano (PCI), a Democracia Cristiana (PDC) e o PSI, Partido Socialista Italiano. O imediato grande resultado desse quadro político foi a Constituição de 1947, universalmente considerada como uma das mais avançadas dos tempos modernos. Esta se abre com aquele Art. 1, de rara inovação, que proclama ser a Itália uma República baseada no trabalho. De todos esses valores partiram as gerações que se completavam: aquela de quantos viveram diretamente as lutas contra a onda nazifascista que destruia a Nação, e aquela outra dos muitos jovens que se preparavam para levar adiante todos os ideiais revolucionários. De tudo isso resultava uma Itália politicamente avançada e de estável consciência social.
Com o extraordinário desenvolvimento trazido pelo boom econômico, a partir do final da década de 50, a vida italiana goza de todas as vantagens e desvantagens de um consumismo sempre mais incentivado pelas constantes evoluções do mercado internacional, cada ano mais globalizado. A uma tal euforia, a cada ano o país era chamado a reflexões pelo suceder da festa do 25 de Abril. Porém, tais chamadas se faziam sempre menos universais pela perda da inicial consciência anti-fascista que sempre caracterizara o evento. A nova tendência era diminuir ao máximo qualquer choque histórico não só com aqueles que viveram o fascismo e depois aderiram ao regime da República de Saló, mas igualmente todos os mais jovens que continuavam a proclamar tais valores, numa clara tomada de posição neo-fascista.
Ao lado de todos esses fenômenos, a vida política italiana assistia a uma desintegração lenta das estruturas de seus partidos – em especial o PSI e Democracia Cristã – particularmente envolvidos num processo de corrupção incessante. Tudo isso explode a partir de 1993, o que leva a Itália a forte processo de regressão tanto política, quanto econômico-financeira.
A Festa do 25 de Abril continuava sempre a ser proclamada com todos os seus valores e assim era comemorada com o passar dos anos e dentro desses tempos novos. Porém, começava igualmente a modificar-se, porque os jovens italianos que se estavam preparando para entrar no novo século, pouco ou quase nada recordavam e sabiam da grande epopéia nacional da Resistência.
Porém, chegado a este 2012 – quando igualmente se comemora os 150 da Unidade da Itália – o 25 de Abril italiano se mantém sempre vivo na recordação de um momento heróico de seu povo e dos muitos jovens que sacrificaram a própria existência pelo ideal de um bem comum. Enquanto isso, dentro de uma crise econômica de fortes proporções, o país procura renovar a sua vida politica e a reencontrar os ideais que a Festa da Resistência a cada ano repropõe em maneira oficial.
Existem muitos pontos de contatos entre o 25 de Abril português e aquele sempre festejado por toda a Itália como um de seus grandes momentos nacionais. Para darmos uma consciência da proximidade das duas grandes Festa, propomos como mensagem comum aos dois eventos um iluminante poema de Sophia de Melo Breyner, com uma sua tradução italiana por méritos de Simonetta Masin,
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
25 aprile
Questa é l’alba che io aspettavo
Il giorno iniziale intero e pulito
Dove emergiamo dalla notte e dal silenzio
E liberi abitiamo la sostanza del tempo.
