EDUARDO GALEANO entrevistado por Marcelo Salles – Conclusão

 

Como está a questão da água no mundo?

 

No dia em que a Frente Ampla ganhou as eleições no Uruguai, final de Outubro de 2004, foi realizado o Plebiscito das Águas. Foi o primeiro e último na história universal. Primeira e única vez – não foi contagioso, infelizmente – que o povo foi consultado para ver o que fazer com a água, pois agora temos que recuperar aquela concepção islâmica de que a água é sagrada. Toda a gente diz, e é verdade, que a água será o petróleo de amanhã. Então, os países que têm água são obrigados a defender a água que têm e também a democratizá-la no uso que se faz dela. Então fez-se  esse plebiscito para saber se a água seria um direito de todos ou se seria um privilégio de empresas privadas. Cerca de 65% votaram pela água como propriedade pública, colectiva. O Uruguai foi o único país que fez um plebiscito. E a Bolívia tinha conseguido o milagre da desprivatização da água, com uma série de insurreições colectivas. Lá a privatização chegou a níveis surrealistas. Não se pode acreditar. Em Cochabanba fora privatizada a chuva. As águas da chuva não podiam ser armazenadas. Os camponeses não podiam recolher as águas da chuva sem pagar às empresas concessionárias. É a empresa preferida de Bush no Iraque, que depois foi recompensada no Iraque, como é o nome ?

 

Bechtel.

 

Bechtel. E depois, em La Paz, houve um processo parecido: a empresa Suez-Lyonnaise, que é francesa, não conseguia explicar por que motivo a parte mais alta da cidade, que é a parte mais pobre, tinha que pagar a maior factura, que era cinco ou seis vezes maior do que quando a água era nacional. Subitamente o preço da água disparou e chamaram os especialistas franceses junto com o governo boliviano para estudar o assunto, para saber qual a explicação para este fenómeno sobrenatural: o pessoal não paga. Resposta francesa: “os bolivianos não têm hábitos de higiene”. Logo os franceses que descobriram o duche há quinze minutos. Não se pode acreditar nisso seriamente. O Uruguai dá uma reposta diferente, tentamos dar. Recolher assinaturas da população para chamar o plebiscito e a opção pela noção pública da água triunfa. Mas não teve a menor repercussão mundial. Você fez uma pergunta ligada à media, eu queria falar disso depois esqueci-me. É um caso típico, pois é uma questão fundamental, que acontece num país que não é fundamental, que é um país marginal, pequeno, de quem ninguém nunca fala, não tem a menor repercussão, não existe. Eu fui lewinkisado. Tomava café da manhã com Monica Lewinsky, almoçava com Monica Lewinsky, jantava com Monica Lewinsky. Aquela linguista da Casa Branca transformou-se numa estrela mundia dos medial. E o Plebiscito da Água, que é uma coisa fundamental na vida de todo mundo, ninguém sabe que isso aconteceu. Isso é um bom retrato da comunicação social. Não houve nenhuma possibilidade de contágio porque não houve nenhuma repercussão. Não se trata de alguma mente malvada que escolhe o que vai divulgar, mas o facto é que a informação privilegiada é a que vem dos países dominantes, e as que dizem respeito aos países dominantes também. E o que acontece nas áreas marginais, no Uruguai por exemplo, é que não existem, somos invisíveis.

 

 Recentemente a Assembleia Geral da ONU votou contra o embargo económico a Cuba, mas o embargo continua.

 

Sim, porque a Assembleia Geral faz recomendações, não tem sentido prático. São apenas soluções simbólicas, porque não são resoluções, são recomendações ao poder exercido por um grupinho de países, que são, como se dizia antes, o grande escândalo do mundo. Agora as Nações Unidas estão a abençoar a guerra do Iraque, pois estão promovendo os processos eleitorais, e a nova Constituição, sob o patrocínio das Nações Unidas, quando toda a gente sabe que um país ocupado por potências estrangeiras não pode ter eleições livres. Para mim está claríssimo que o mundo hoje não é democrático, é dirigido por alguns organismos internacionais e são estes que decidem. Há um supergoverno que governa os governos. Por exemplo: o Banco Mundial decidiu que em 16 países a água deve ser propriedade privada de empresas. Esses 16 países foram obrigados a aceitar a privatização da água. O FMI decide o ritmo das chuvas, a intensidade do amor dos amantes. Quantos países dirigem o FMI? Cinco, e dentro destes, sobretudo um. O Banco Mundial é mais democrático: são oito países. Por isso o nome “Mundial”. Quem decide as coisas dentro das Nações Unidas? Na Assembleia Geral estão todos, mas estes só formulam recomendações, quem toma decisões é o Conselho de Segurança onde cinco países têm direito a veto. Esses cinco países que prezam pela paz no mundo são os cinco principais produtores de armas. Ou seja: os que lucram com a tragédia humana são os anjos guardiões da paz mundial. Enquanto o mundo não for capaz de mudar essa estrutura de poder não será democrático. E tampouco haverá paz, pois se as guerras necessitam de armas, as armas também necessitam de guerras.

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