Numa viagem de autocarro, em tarde meio cinzenta, por uma estrada estreita, a Costa Amalfitana fazia-me lembrar a Serra da Arrábida. Ambas belas, cheias de recortes, o olhar descendo até ao mar. Alguém disse: “aquela ilha ali foi onde morou Nureiev nos últimos anos de vida”. Rebusquei na memória o que dele sabia. Pouco: grande bailarino russo que pedira asilo no ocidente, dançara com Margot Fonteyne, uma imagem do “Lago dos Cisnes” (em que no entanto nunca tivera oportunidade de os ver), de calções bem apertados e outra do filme “Valentino”. E nada sobre a sua velhice e morte.
Imaginei-o naquele sítio paradisíaco, quase mergulhando directamente de casa para o mar, banhos de sol, boa comida e bebida… Porquê pensar em coisas más?
De volta fui ver o que lhe acontecera. Fieis as imagens que tivera, encontrei-as agora na net. Fiquei triste com o estigma da sua orientação sexual e a doença do final de vida. E descobri ainda que Rudolf Khametovich Nureyev (ou Rudolf Xämät uğlı Nuriev) (1938-1993) vivera no ocidente desde 1961, sobretudo em Paris, onde era o diretor e principal coreógrafo do Ballet da Ópera. Em 1989 deslocou-se pela última vez à União Soviética (a primeira desde que com ela cortara), onde dançou e reviu a família e os locais da infância. Em 1992 apareceu em público pela última vez, como diretor na estreia parisiense de uma nova produção de La Bayadère. Morreu em 1993, em Paris. Nunca esteve ligado a nenhuma companhia certa e foi sempre artista convidado por todo o mundo, quer como bailarino, quer como coreógrafo.
Afirmava ele “Técnica é o que se usa quando falta a inspiração.” Não creio que ele fosse só uma das duas coisas.
Aquelas ilhas, são as que chamam Li Galli, onde as lendas nos colocam Ulisses, escutando o canto das sereias, e enchendo os ouvidos de cera para não ser seduzido por elas. E elas seriam o resultado da transformação das três sereias em pedras, fazendo-as emergir. Esta lenda serviu de tema a vários pintores, entre eles Herbert James Draper.
Numa paragem da viagem a um vendedor de beira de estrada comprámos uns pequenos citrinos cor de laranja (tamanho de bagos de uva compridos e grandes) que nos disseram que se comiam com casca. Era um sabor meio doce, meio amargo, mas que sabia bem. Os restos vieram até Lisboa e deles fiz uma compota. Investiguei na net (esta nova oportunidade que nos resolve tantas questões…) e descobri que se chamam Kumquat nagami. Delicio-me a comer bolachas de água e sal com ela cobertas, enquanto escrevo este post.




