BATA SANO
O quartel do Bata Sano era constituído por um conjunto de edifícios da antiga sede administrativa que, mais tarde, se deslocou lá para baixo para o Buco-Zau, atravessado pela estrada que levava ao Belize num meandro do rio Luáli. A Companhia integrou-se na segurança do Batalhão, ambientou-se à zona, preparando-se para a nova missão que ali vinha. Estávamos na estação do cacimbo, bastante seca, em que nas picadas se levantavam grandes nuvens de pó à passagem das viaturas.
Íamos enfrentar um inimigo de dois tipos: o primeiro, que não estava ainda a desencadear a luta armada, constituído pela UPA, a FLEC e outros seus derivados, numa fase de alguma indefinição; o segundo, constituído pelo MPLA já com bons quadros, um comité político e outro operacional, operando a partir do Congo Brazzaville. Constituía, neste país, uma região militar directamente ligada a Agostinho Neto, dividindo-se em duas zonas: uma a norte, com sede em Dolisie e outra a sul, sediada em Banga. Conhecedor da importância daquele território, estava bem organizado e cada vez mais agressivo, destacando frequentemente bases temporárias para junto da fronteira.
DOLISIE
A melhoria da rede estradal por aquelas remotas paragens era de grande importância para as NT, por facilitar o acesso aos aquartelamentos. Sendo uma região de floresta quase virgem, pouco povoada e, por conseguinte, um tanto abandonada sob o ponto vista administrativo, urgia garantir ali a nossa soberania, distribuindo-lhes subunidades militares com funções de quadrícula.
INTEGRAÇÃO NA OPERAÇÃO “MUNDO NOVO – 1.ª PARTE”
Em 15 de Agosto 1970, com a formação do Agrupamento Alfa constituído pela nossa Companhia, reforçada por dois grupos de combate da CArt 2616 e um da CCaç 2740 para além do Pelotão de Engenharia 2580, preparámo-nos para iniciar a operação “Mundo Novo”, naquela que seria a sua 1.ª Parte. Havia ainda um Agrupamento Beta, radicado no Tchivovo, onde estava sediada a CCaç 2738 a garantir a nossa segurança afastada e um Agrupamento Charlie, com base na CCaç 2570, a ocupar o Chimbete, com o encargo da segurança próxima.
Fomos ocupar o acampamento do Caio, nas imediações do Buco-Zau, um espraiado no meio da mata, onde algumas árvores ainda tinham ficado de pé. As instalações eram precárias, só a cantina estava instalada num barracão de madeira. Os oficiais viviam numa tenda 16P, os sargentos nas cónicas e as praças, salvo algumas excepções, nas 3P que montaram à volta do acampamento, integradas na sua segurança. Estávamos em plena mata do Maiombe, o clima era insalubre e, para além do inimigo, os mosquitos eram uma ameaça constante.
Dormíamos em colchões de ar, altamente incómodos que, por vezes, se esvaziavam durante a noite, deixando-nos a dormir ou acordando-nos em cima da terra batida. O acampamento era iluminado por um gerador eléctrico, possuindo potentes holofotes distribuídos pelo seu perímetro, projectados para o exterior, com os quais se pretendia reforçar à noite a segurança. Semanalmente podíamos desfrutar de uma sessão de cinema na Fazenda Alzira, ali ao lado, onde se cultivava café do tipo “robusta”. Cada dia iam para a frente de trabalhos três pelotões montar segurança ao pelotão de engenharia, que se fazia acompanhar por pesadas máquinas: escavadoras, cilindros, niveladores e uma camioneta de carga.
BUCO-ZAU
Nomeados por escala, no acampamento ficava um grupo de combate de serviço interno, um de piquete, um de reserva e um de descanso. Cerca das seis da manhã, seguiam para a frente de trabalhos três grupos de combate montar a segurança à engenharia. Devidamente equipados e armados, progrediam em coluna respeitando as regras de segurança, com os combatentes distanciados uns dos outros cerca de cinco metros. Cada militar levava a sua vara de ferro (verguinha), afiada bem na ponta, para detectar as minas durante a sua progressão. Ir à frente era um risco enorme. Nessas alturas o coração batia mais forte, o perigo espreitava, a tragédia podia estar a um passo. Muitos se aproveitavam das pegadas do homem que ia à frente para não serem surpreendidos por qualquer mina anti-pessoal, embora o rebentamento de uma emboscada fosse uma questão a não pôr de parte.
Chegados à frente de trabalhos, fazíamos o reconhecimento ao local e montávamos a segurança, iniciando a engenharia a sua faina. Havia um calor abafado e o miruí atacava sem descanso. O pessoal levava pastas repelentes, mas estas não eram cem por cento eficazes contra estes mosquitos que, frequentemente, nos pregavam profundas ferroadas deixando-nos auréolas vermelhas nos braços, na cara e no pescoço. Como a estadia na mata era prolongada, pois só regressaríamos à uma da tarde, levávamos um pequeno reforço alimentar constituído por um sumo e uma sandes, normalmente de chouriço, que comíamos ao meio da manhã.
Em 16 de Agosto, estávamos a iniciar a comissão e, pelas 07:40, sofríamos a primeira emboscada. Um grupo de observadores inimigo já nos andava a estudar há vários dias e ia ter ocasião de nos testar. As forças do MPLA, estimadas entre 25 a 30 elementos, ocuparam os morros do lado esquerdo da picada de onde poderiam retirar rapidamente para o Congo Brazzaville, que não ficaria longe, e iniciam o tiroteio. Os nossos homens abrigaram-se por onde puderam e reagiram prontamente, tendo o inimigo retirado ao fim de 30 minutos, não se sabendo com que baixas. Usou armas automáticas e os temíveis RPG2, deixando no local 8 quilos de explosivos que não chegaram a explodir, ao que se julga por deficiente montagem. Pouco depois, havendo o reconhecimento de que o inimigo já não estaria ali, progrediu-se até à frente de trabalhos, onde se prosseguiu com as tarefas do dia. Sofremos apenas um ferido ligeiro. Dada a densidade da mata não houve perseguição das forças adversárias, nem tal seria aconselhável, devido à dificultosa penetrabilidade na floresta e o desnivelamento do terreno.
No dia seguinte os trabalhos prosseguiram. Quatro grupos de combate iam montar a segurança à engenharia e um, depois, regressaria.Vai a comandar a força, nesse dia, o capitão Coutinho. Ele próprio quis tomar parte nessa saída, dada a perigosidade que via nela. Na frente da coluna vai o 1.º grupo de combate da CCaç 2739, comandado pelo alferes Aguiar. Progredia-se com toda a precaução, três quartos de hora depois, estamos na frente de trabalhos, uma área enorme já desmatada, rodeada de árvores de grande porte. Com todos os cuidados, começamos a instalar as secções na orla da mata. A primeira secção ia ficar no lado direito, comandada pelo furriel Nogueira e, a segunda, no lado esquerdo, comandada pelo furriel Evaristo Vieira. Estávamos a seguir para os lugares que iríamos ocupar quando, de repente, se ouve uma explosão. Não se sabia bem o que tinha acontecido porque a área era bastante vasta, até que se nota um fumo negro do lado esquerdo da picada que dava para o Chimbete e, lá em cima, se destrinça alguém a gemer. Vozes de aflição se fizeram ouvir naquele ermo. O soldado Lourenço da Conceição Bernardo tinha pisado uma mina. Ficara sem um pé, vendo-se a carne cinzenta com aquele cheiro repulsivo a carne assada e a extremidade dos ossos da perna à mostra. Chegou-se logo a ele o socorrista e, pouco depois, o médico que lhe fizeram o tratamento que havia a fazer nestas circunstâncias. Foi chamado um helicóptero para o evacuar. Levaram-no de seguida para o hospital da Fazenda Alzira de onde foi, pouco depois, evacuado para Cabinda.
Naquela manhã, os trabalhos prosseguiram mas, o moral do pessoal tinha sido afectado. Uma nuvem de tristeza sobrevoava o interior da nossa alma. Aquele accionamento da mina podia ter acontecido a qualquer um de nós.
Mais tarde soubemos que perdera a perna, embora os danos visíveis se tivessem ficado pelo pé. Com a azáfama e tensão com que andávamos, nem tivemos disposição para depois acompanhar devidamente o seu processo de recuperação na Metrópole. Ele, embora sem o pé, já se safara daquela guerra, enquanto nós ainda não sabíamos se íamos lá deixar os costados. No dia seguinte, o primeiro grupo de combate instala-se no mesmo lugar para montar segurança aos trabalhos e o alferes Aguiar segue para o local onde tinha rebentado a mina. Pega na pica, que usava com os demais nas suas progressões na picada para a detecção de engenhos explosivos e, fazendo uma picagem à zona, uma hora depois descobre ali um campo de minas. Assinala a primeira com ramos de árvore. Prepara-se para a levantar quando o seu furriel Nogueira, com mais experiência nesta área, o demoveu e, com algum vagar, a levantou.
Nos dias que se seguiram, bastante quentes e abafados, sob o constante ataque dos mosquitos, continuou-se com a operação. Sempre a mesma incerteza, a mesma monotonia dos tempos mortos e a mesma solidão de quem está próximo da Eternidade. Afinal, mesmo com o inimigo por longe, podíamos ter baixas e perder uma perna é algo apavorante. Muitos, ao pensarem naquela hipótese, diziam preferir a própria morte. Uma tal perda era, para eles, insuportável. Jovens que eram, não se queriam imaginar a serem uns inválidos para toda a vida.
Em 7 de Setembro, pelas 7 horas, iniciou-se a mudança do Agrupamento Alfa do acampamento do Caio para a região de M`Bundo. Nesse dia estiveram envolvidos em diversos patrulhamentos: o “Agrupamento Beta”, garantindo a segurança afastada e o “Agrupamento Charlie” a velar pela segurança próxima, tendo a transferência decorrido sem incidentes. Tivemos que nos mudar já que a frente de trabalhos estava muito afastada do acampamento, fazendo-nos perder demasiado tempo nas nossas deslocações diárias, para além de aumentar o risco de accionarmos minas ou sofrermos uma emboscada.

Quero aqui agradecer ao José Brandão por ter referido a CART 2516 nos seus relatos. Quero também informar o José Brandão e a todos os leitores deste pedaço magnífico da guerra ultramarina, que no meu grupo do Facebook, denominado precisamente Grupo da Cart 2516, temos muitas histórias e um leque fabuloso de fotografias desta Operação do Caio Novo, como também de todos os locais de que fala, Buco-Zau, Bata-Sano, Dinge, Chimbete e por aí fora. Um grande abraço e lá espero por todos vós.