O DINHEIRO COMO EQUIVALENTE-GERAL – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                               

 O dinheiro ainda não foi inventado e um sol de Primavera amanhece sobre Lisboa. Desço à beira do cais e ganho uma súbita vontade de comprar um peixinho para o almoço. Na mão direita levo três maços de cigarros e entro no mercado. Chego-me à banca do peixe e pergunto à mulherzinha:

 

– Ó Ti Maria, a como é que está o goraz?

 – Está a um litro de azeite por quilo de goraz.

 – E por acaso não aceita também três maços de cigarros?

 Desolada, a mulherzinha responde-me:

 

 – Eu não fumo, meu senhor…

 Como eu quero um quilo de goraz, trato logo de procurar o azeiteiro. Encontro-no num dos cantos do mercado e pergunto-lhe:

 – A como é que está o litro de azeite, ó tiozinho?

 – Está a cinco quilos de batatas o litro.

 – E vossemecê não aceita três maços de cigarros por um litro?

 – Também podia ser. Mas tabaco já tenho para mais de uma semana. Do que eu preciso agora é de batatas.

 Como eu quero um quilo de goraz trato de procurar a rapariga das batatas. É uma estampa de mulher e pergunto-lhe:

 – A como é que está a batata, ó minha flor?

 – Está a um garrafão de vinho tinto por cinco quilos, ó simpático.

 – E tu não tens namorado, ó palminho de cara?

 – E o que é que isso te interessa, ó meu boneco?

 – É que se tivesses, arranjava-te uma prenda para ele: três maços de cigarros…

 – Ó filho, também pode ser! Venham de lá os três maços e leva daí os cinco quilinhos de batatas.

 Agarro nas batatas e vou trocá-las por um litro de azeite. Agarro no azeite e corro para a banca do peixe.

 – Ó Ti Maria, já tenho aqui o azeite! Pese lá um quilo de goraz.

 – Azeite? Eu já não preciso de azeite, meu senhor! Já tenho azeite para mais de um mês… Do que eu preciso agora é de queijo fresco. Um quilo de peixe, por um quilo de queijo fresco, ó freguês!

 Entretanto o mercado já estava a fechar.

 Fui para casa.

Durante toda a tarde fiquei a olhar muito desconsolado para a garrafa de azeite e nem ao menos tinha um cigarro para espairecer.
 

(in 25 CONTOS DE ECONOMIA Editora O MALHO – Lisboa, 1978)

 

1 Comment

  1. Fernando, os teus professores do ISCEF ficariam desesperados se lessem este e os outros contos que escreveste sobre as ciências económicas. Alguma coisa correu mal nessas aulas do Quelhas. Felizmente, pois os contos são magníficos – ironia concentrada, humor corrosivo em estado puro. Venham mais – o »Anão» e este abrem o apetite para os restantes. E para o «Mata-Cães»…

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