Este editorial é escrito após a leitura das notícias, escolhendo quem o escreve, entre os despojos do dia, o que irá apresentar a quem o lê. Há sempre a dúvida – alguém lerá? Ultimamente temos tido algum “som de retorno”, sinal de que há quem passe os olhos por esta rubrica diária. E não nos queixamos de que esse som de retorno nos traga quase sempre vozes discordantes.
Hoje, pela manhã, ao consultar as últimas notícias, deparámos com o predomínio de um tema que sempre evitámos abordar – o futebol. Não por elitismo ou por não gostarmos de futebol. Gostamos de futebol e o elitismo seria tonto quando se sabe que Albert Camus, foi jogador profissional e adepto ferrenho do “desporto-rei”, tal como Sartre, Ernesto Sábato, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Eduardo Galeano… e falando só de Portugal podemos dizer que os dois prémios Nobel, Egas Moniz e José Saramago, eram apreciadores de um bom jogo, o mesmo se podendo dizer de Aquilino Ribeiro, de José Cardoso Pires, de Álvaro Cunhal, de Manuel Alegre, de António Lobo Antunes, de Ruy de Carvalho… A listas seriam intermináveis, a de estrangeiros e a de portugueses. Seria, pois, uma patetice não falarmos de futebol por nos sentirmos superiores a «essas coisas».
Não falamos de futebol porque é um tema fraccionante e porque a verdade desportiva é diferente para cada pessoa, ao sabor de clubismos, regionalismos, opções políticas e, sobretudo, de circunstâncias – critica-se a corrupção quando o nosso clube é, ou supomos que é, prejudicado. Por isso, se disséssemos o que pensávamos sobre a derrota da selecção nacional ante a modesta equipa turca, tendo assegurado o aplauso mudo de alguns, teríamos a condenação explícita por parte de outros. Teríamos, talvez mais comentários do que esta coluna suscita habitualmente e (sempre talvez), teríamos instalada uma polémica que outros temas, como a democracia, ou a literatura, não lograram obter.
Ainda hesitámos entre as declarações de Cavaco Silva na Feira da Agricultura em Santarém e as manifestações no Cairo. Temas igualmente fraccionantes, pois não resistiríamos a condenar, como já o fizemos, a atribuição de subsídios a criadores de “gado bravo”, e algum ganadero podia sentir-se ofendido, e quanto ao Egipto, podíamos não evitar um desabafo – “bem dissemos que derrubar Mubarak era só mudar de tirania…” Algum fiscal do politicamente correcto não perdoaria – hoje é domingo e não queremos dar trabalho nem a ganaderos nem a fiscais pedagogos, daqueles que se cometemos um erro de ortografia (que até pode ter sido um erro de dedos ou mesmo de correcção das lentes do fiscal…) logo nos pespegam com a história da escrita, desde os caracteres cuneiformes e dos hieroglífos à origem do alfabeto, passando pelo papiá de Malaca…
Alain Resnais faz hoje 90 anos. Foi ele quem disse há muitos anos que é duro viver na época americana e não ser americano. E que fez filmes como Ano Passado em Marienbad, que tanto fez trabalhar as meninges dos fiscais e outros filmes menos propensos a hermenêuticas dos que gostam de fabricar chaves para portas abertas – tais como Hiroshima, mon amour, Nuit et Brouillard ou Guernica. Aí temos o jovem Resnais, pedalando catorze anos atrás (ou à frente?) do nosso Manoel. Parabéns Alain Resnais!
Eis uma notícia que não levantará problema. Não levantaria, se ainda tivéssemos espaço para a desenvolver.


Comentários a este DB:Primeiro: gostar de futebol parece uma espinho cravado na consciência de alguns adeptos que passam a vida a justificar-se como se fosse algo de vergonhoso apreciar o chamado desporto rei. Não percebo porquê. O futebol é um desporto como outro qualquer, não sei porque há-de provocar tão má consciência. O que eu detesto no mundo do futebol não é o desporto em si, mas tudo o que o rodeia – os negócios mafiosos e a falta de elevação comportamental e mental que quem o domina fomenta ao invés de combater nos adeptos. O que seria nobre era o contrário: utilizar as suas potencialidades para elevar intelectual e humanamente os seus admiradores. Mas também acho curioso dizer-se que “ o elitismo seria tonto quando se sabe que” pensadores consagrados gostaram ou gostam de futebol. Essa é boa! Não encerrará, também, essa afirmação algum elitismo?Segundo: porque não levam o António Borges com o Cavaco Silva quando forem à feira do gado?Terceiro: Viva Alain Resnais , por muitos anos! Nos tempos que correm, é bom rever esses três filmes – Hiroshima, mon amour , Nuit et Brouillard e Guernica para não nos esquecermos, nunca.