EM COMBATE – 81- por José Brndão

Mas havia que preparar os nossos homens para aquela jornada em África…Já se falava em Angola, já que o anterior batalhão tinha rumado a Moçambique. Demos o melhor de nós, afinal era com eles que iríamos contar e ter de enfrentar o desconhecido…

 

Foram meses duros…ainda mais, porque tínhamos alguém a quem obedecer que por vezes fazia pouco para o merecer… Por alguma razão se manteve como foi até ao final da comissão!
Depois a surpresa que muito nos agradou… O nosso capitão havia estado, no Leste de Angola, como Alferes Miliciano, exactamente no mesmo local onde a nossa companhia estava destinada… A Lumbala.

 

Concluída a formação do Batalhão mais algumas peripécias com a partida…Partida marcada, parte não parte…Duas despedidas à família… E alguns já diziam: Isto é tudo psico! Eu sei lá o que era, mas que era muito mau, era!

 

O dia D enfim chegou e lá partimos num voo dos TAM cerca das 23h…que, por sinal após uma hora e meia de viagem, teve de regressar a Figo Maduro… Era mais psico? Não! Era mesmo avaria e só voltámos a embarcar era já madrugada…

 

Voltando à região calcorreada por nós de Agosto de 1973 até Novembro de 1974, para falar da estrada que nos levava à sede do batalhão – Cazombo. Seguíamos para Norte, eram uns 100km de picada, experimentando grande dureza e atravessávamos numerosas pontes construídas com troncos de árvores. A primeira povoação que encontrávamos era o Chilombo, igualmente na margem esquerda do Zambeze, onde se encontrava um destacamento de Fuzileiros, depois seguiam-se outras de menor importância e enfim o Cazombo. Aqui, a possibilidade de irmos beber uma cerveja ou comer uma alheira com um ovo estrelado ao “civil”, assim chamávamos aos bares e restaurantes dos comerciantes por ali estabelecidos.

 

Quando nos calhava a sorte de termos de fazer a escolta ao MVL, então, no dia seguinte seguíamos mais para Norte até ao Cavungo (Nana Candungo) e dali até ao Marco 25, a partir do qual percorríamos a fronteira com o Zaire (ex-Congo Belga) até chegar a Vila Teixeira de Sousa (Luau), onde os comerciantes civis se vinham abastecer.

 

Teixeira de Sousa era servido pelos CFB (Caminhos de Ferro de Benguela), via de comunicação importantíssima tanto para Angola como para outros países do interior africano, principalmente o Zaire e, já na altura se mostrava como uma pequena cidade em embrião.

 

Aqui chegamos de comboio a 24 de Agosto de 1973 e daqui seguimos em sentido inverso até à Lumbala, lembro essa viagem alucinante na caixa de camiões de carga e recordo a passagem pelas povoações e a chegada à Lumbala um pouco à laia de algumas passagens do filme “Apocaplipse Now”! Tudo aquilo para nós era o desconhecido…e a recepção dispensada, a nós “maçaricos”, algo que perduraria na nossa memória.

 

Ainda falando de Teixeira de Sousa, ali encontrávamos um pouco mais de civilização e, além de podermos ir ao cinema ou a uma matinée dançante, podíamos nos deliciar com uns bons mergulhos na piscina do Luau, junto à fronteira com o Zaire.

 

De Teixeira de Sousa seguia depois a estrada para Nova Chaves, Henrique de Carvalho, Malange, Salazar…até Luanda. Hoje olhamos o mapa e não conseguimos decifrar este itinerário, o qual, percorremos, no final, aquando do nosso regresso a Luanda, pois a toponímia é totalmente diferente!

 

MEMÓRIAS – PARTE III

 

Chegamos a Luanda… A primeira imagem é toda aquela terra vermelha…África!

 

E lá fomos para o Grafanil… Era uma azáfama de gente (militares) e viaturas…Puseram os nossos homens numa caserna bem arejada e a nós sargentos (furriéis) numa casa de madeira em cujo telhado só se viam osgas a passear…coitadinhas das “aborboletinhas”…Fugimos logo dali e fomos pedir asilo na Setubalense bem perto da Mutamba (onde se apanhava o “machibombo” para o Grafanil…) até que rumamos à Funda para fazer o I.A.O., ou seja a adaptação à zona operacional… Na Funda ficamos instalados num antigo colonato e dali partíamos em pequenas operações pelas matas do Catete…Para quem desconhecia as matas e florestas africanas foi uma experiência inolvidável, onde ataques de formigas “salalé” e de pulgas “matacanhas” nos deixavam desesperados… Depois a visita a algumas fazendas da região…uma delas a Maria do Carmo ou seria Maria Helena?!…

 

Nos momentos de folga dávamos uns “raides” até ao Cacuáco e tirávamos a barriguinha de misérias a comer camarão e caranguejos de Moçâmedes bem regados com uns “canhangulos”.

 

Mas o Leste estava à nossa espera e era preciso rumar até lá…

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