Uma série, Uma viagem ao mundo da alta finança.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota.

1. O gang dos banqueiros

 

Le Monde LE GANG DES BANQUIERS D’UBS

 

(conclusão)

 

A feira  de Basileia em  Miami (Art Basel Miami), em parte patrocinada  pela UBS, era  na altura um dos locais de preferência para encontrar gente rica  americana. Mas também havia  torneios de golfe ou de vela, concertos de música clássica.


Para os americanos ricos, a vantagem de confiar os seus milhões a um banqueiro suíço, é sempre a mesma: “A evasão fiscal…” “As pessoas também sempre gostaram da ideia de que eles podem esconder qualquer coisa à sua esposa, ou talvez ao seu sócio, nos  negócios.”


“Ao longo da minha carreira, eu nunca vi ninguém declarar uma dessas contas suíças”, testemunha Birkenfeld.


Os banqueiros de UBS, rodeados por uma rede de advogados e contabilistas propõem engenhosas montagens financeiras e jurídicas. A identidade dos contribuintes americanos era escondida por intermédio de empresas ecrãs. Bradley Birkenfeld trabalhou lado a lado com Mario Staggl, um advogado fiscalista empregado num trust no Liechtenstein. O milionário Igor Olenicoff, que tinha aberto contas na Suíça, na Inglaterra e nas Bahamas, abrigava-se, entre outras coisas, atrás de empresas ecrãs sediadas no Liechtenstein e na Dinamarca, como o detalha a peça de acusação de Birkenfeld.

 

Os banqueiros também prestavam assessoria aos seus clientes: depositar dinheiro líquido nos cofres do banco na Suíça, adquirir jóias com financiamento a partir dos  fundos não declarados, ou até mesmo adquirir obras de arte. Bradley Birkenfeld diz ter comprado diamantes para um deles e, em seguida, tê-los trazido levado para os Estados Unidos  num tubo de pasta de dentes. A regra de ouro é a discrição.


Para entrar nos Estados Unidos, alguns gestores de fortunas fazem-se passar por turistas ou por amigos. Nas suas malas de viagem trazem notas codificadas contendo as informações bancárias, documentos escritas à mão e com nomes de código. Os seus computadores estão equipados para receberem informações ultra confidenciais. “Mesmo que os funcionários da Alfândega dos Estados Unidos  os abram , eles nada veriam”, acrescenta Birkenfeld.


Tudo isto é destinado aos  clientes a quem  desaconselham  receberem  os extractos de conta, chamadas telefónicas , correio   por e-mail ou por carta . E quando os americanos milionários se  deslocam à  Suíça, em média de seis em seis meses, os documentos que eles consultam são, de seguida, pura e simplesmente destruídos.


 

Bradley Birkenfeld não hesita em carregar também sobre os seus superiores. De acordo com ele, Martin Liechti, então chefe da gestão na divisão de fortunas para o continente americano, definia às suas tropas objectivos cada vez mais elevados para atrair os ricos americanos. Em Abril de 2008, ele foi rapidamente interpelado em Nova York, e ficou apreendido o seu computador portátil. Nele os investigadores encontraram documentos interessantes, como, por exemplo, este e-mail a desejar votos  de Bom Ano Novo enviado ao pessoal em 2007: “nós passámos em 2004 de um montante de 4 milhões (dólares) dos fundos sob gestão de conselho aos clientes para cerca de 17 milhões em 2006.” Temos de continuar a ter ambição e procurar chegar aos 60 milhões! (…) ” Todos juntos, como uma verdadeira equipa, eu estou convencido de que conseguiremos.”


Nada predestinava  Bradley Birkenfeld para desencadear um tal  escândalo. Aa carreira deste homem saído da classe média de Massachusetts iniciou-se inicialmente em grande aparato. Em 2001, depois de trabalhar durante cinco anos em Genebra para o Crédito Suisse e para o Barclays, foi contratado pela UBS. Na sua bagagem, ele leva o famoso milionário Igor Olenicoff.  Uma carta de recomendação para o trabalho, atesta o seu caracter “muito comunicativo ” e o seu “espírito positivo”.


Mas, a partir de 2004, o vento muda de direcção: censuram-lhe a  sua falta de melhoria de resultados . O tom crítico sobe. O americano, em seguida, vê no Banco uma informação de UBS indicando que a prospecção de novas contas nos Estados Unidos é proibida. O contrário do que andava a fazer! O banqueiro, de repente, sonha colocar-se na pele de um whistleblower  (“denunciante  de irregularidades”) teria referido o documento  à sua  hierarquia, como ele disse ele aos investigadores. Sem sucesso. No final de 2005, zangado e com alguma amargura, bate com a porta à UBS, com uma indemnização 500.000 CHF (329 000 euros), levando com ele documentos, cartas e e-mails incriminatórios.


Ele também teria sem dúvida continuado na sua carreira como gestor de fortunas, se Igor Olenicoff cliente não tivesse sido apanhado pelo fisco americano e julgado em Abril de 2007. Bradley Birkenfeld  soube então que tinha sido  denunciado e decidiu  pôr-se à  tabela.


Neste momento, é o único banqueiro da UBS a ser julgado. Em 19 de Agosto, depois da  assinatura de um acordo extrajudicial entre Washington e Berna, o banco escapou à justa a um grande processo judicial e o grande barulho  público foi assim evitado . A UBS deverá transmitir até daqui a um ano 4 450 contas bancárias não declaradas, enquanto a procura do fisco se situava inicialmente em 52 000 contas.


Mas quase semanalmente aparecem novos detalhes sobre o escândalo da UBS nos Estados Unidos. Antigos clientes americanos do banco estão a começar a aparecer. Cento e cinquenta pessoas foram já acusadas na base dos  dados enviados em Fevereiro  pela  Suíça. Quatro deles declararam-se culpados. Os seus testemunhos estão disponíveis no site do Tribunal de Justiça do Distrito Sul da Flórida.

 

No final  de Julho, Jeffrey Chernick, um industrial  de brinquedos que ocultou cerca de 8 milhões, veio agitar fortemente as águas calmas desta história. Este industrial contou como é que o seu banqueiro suíço, primeiramente empregado na  UBS e, em seguida, empregado num pequeno estabelecimento bancário de Zurique  e seu advogado  o visitaram na qualidade de  ” de turistas para não serem  identificados”.   Chernick disse que, um ano antes, quando o processo UBS estava a rebentar tinha a intenção de informar as autoridades fiscais. Os seus conselheiros disso o dissuadiram de o fazer. O banqueiro ter-lhe-ia proposto um serviço: um de seus contactos altamente colocados em Berna poderia verificar se o seu processo fazia ou não parte daqueles em que Washington estaria interessado. Este serviço seria pago pelo valor de 45.000 dólares. Um inquérito foi aberto na Suíça.

 

Le MondeLE GANG DES BANQUIERS D’UBS,  27 de Agosto de 2009

 

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