Dois poemas de Ethel Feldman

 

 

Ethel Feldman

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

 

 

Memórias

 

O mundo sabia de cor, a cor da dor de quem nunca teve a sorte de nascer imperador. O peixe era doce e cru. A beterraba avinagrada. A vontade de ser feliz era tanta como a tua agora que acabas de nascer. O jejum era dos pobres que o faziam dia após dia.

 

Vizinhos da vida viajaram sem regresso com um sorriso que não esqueço. O homem mata o homem e nunca sabe porquê. Bendita a memória que me assombra neste dia que nasce outra vez.

 

 

 

 

 

Saber

 

 

segue a angústia o medo de me perder, porquanto mais procuro pressinto o fim. Lá onde o sol ameaça nascer, recuo em busca do eu que teimoso mostra-me não existir. Lá onde tudo e nada ocupam o mesmo espaço vazio, fronteira do meu despertar, tão perto de mim que não alcanço. Canta a dor que trago no peito, a verdade que sinto e não entendo. Bastaria um lampejo e saberia que tudo que aprendi de nada me serve se nunca o senti. Ali, onde o rio e o mar se unem, afogo-me na esperança de nada saber.

 

 

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