DIÁRIO DE BORDO, 22 de Junho de 2012

 

E então eis que Berlusconi, pois o tal, o deposto, mas continua a ser um chefe político importante da direita italiana, nos vem a dizer que a saída do euro não é drama nenhum, que ou sai a Itália, ou sai a Alemanha, ou Angela Merkel deixa o BCE intervir para apoiar o euro. Leiam o que diz o Eurointelligence de ontem a este respeito (publicado em A Viagem dos Argonautas, ontem, às 23.55). Portanto parece que o Signor Berlusconi até encara como uma das alternativas o regresso da Itália à lira. Ou será que iria preferir outra moeda, sem ser o euro ou a lira? Dele, pode-se esperar tudo. Menos, claro, que se preocupe a valer com os problemas das classes trabalhadoras ou do povo em geral.


O primeiro ministro francês, Jean-Marc Ayrault, também fala de eurobonds e coisas afins, mas acha que é necessário avançar com a integração política, que ainda poderá demora vários anos. Continuando a citar o Eurointelligence, precioso contributo do argonauta Domenico Mario Nuti, Anatole Kaletsky, comentador da Reuters, diz que Angela Merkel acredita sinceramente que está a ajudar a Europa com as suas instruções maternais para os gregos, portugueses e espanhóis fazerem o que ela chama o trabalho de casa (realmente, será que ela estaria a pensar na compra dos submarinos?), e portarem-se como alemãezinhos bem comportados, mas que o seu esforço para impor a hegemonia alemã vai falhar. E que o problema não é a Europa aceitar viver sob a liderança alemã, mas sim a Alemanha aceitar uma liderança europeia, ou em alternativa as outras nações serem capazes de fazerem uma frente unida contra a Alemanha para a impedirem de destruir a Europa, como já tentou no passado.


Estas opiniões convergem num ponto: adensam-se as dúvidas sobre o papel da Alemanha na Europa. É indiscutível que pretende um papel preponderante. E que as medidas que pretende ver impostas nos restantes países, não são de molde a facilitar a vida destes. A austeridade está a criar problemas gravíssimos, as faladas reformas estruturais resumem-se a exacções sobre as classes trabalhadoras e os menos favorecidos em geral, e os aparelhos produtivos dos vários países estão gravemente afectados. Só a Alemanha aparenta uma vida económica sólida. Mesmo a França e o Reino Unido parecem estar a ser afectados por aquilo a que se chama a crise. Há previsões de que esta vai recrudescer dentro em breve, com efeitos ainda mais graves.


A integração política é uma incógnita. Em que moldes se pretende que seja feita? Sob pressão da crise, que medidas irão ser tomadas? Que garantias terão os cidadãos dos vários países? Na realidade as primeiras medidas a serem tomadas terão de ser no campo económico. É verdade que terá de haver sincronização entre os vários países, a começar pelo sistema bancário e pela política fiscal e financeira. Mas o grande problema é que essas medidas terão de ser orientadas para dar garantias aos cidadãos, em primeiro lugar, e não aos banqueiros, financeiros e especuladores. Essa é a grande mudança  estrutural de que a Europa, os europeus e não só precisam.

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