Tendo sido atribuída à companhia uma zona muita a norte da possível zona de confrontos, onde deveriam servir de tampão a passagens por ali, referiu o Ieró que dali só por milagre se faria alguma coisa com interesse. Obtida a autorização do comandante da operação, tenente-coronel pára-quedista Araújo e Sá ocupou então a companhia a zona de cambança do rio onde se iniciava o corredor de infiltração de Missirã no que resultou um contacto extremamente violento com a dita guarda avançada comandada pelo próprio Nino Vieira comandante da Zona Militar Sul do inimigo e o impedimento de prosseguir para o interior da província dos elementos da ONU. Uma vez mais o Ieró se portou com o valor, a coragem, o destemor, o desprezo pela vida que uma vez mais conscientemente expôs ao perigo, batendo-se com o entusiasmo e a grandeza de alma que o levava a tudo superar, a galvanizar os seus camaradas, enfrentando de pé, indiferente ao imenso tiroteio que acontecia. Tendo sofrido pesadas baixas teve o grupo inimigo de se retirar desmoralizado.
Ainda hoje mantenho a firme convicção que era ele bem mais português que a maioria dos aqui nascidos.
Tragicamente o abandonamos quando mais de nós precisava. Tal como às restantes forças africanas que anos a fio fomos comprometendo, naquela que, quanto a mim foi a página mais negra e mais vergonhosa da nossa história contemporânea.
Preso em Dezembro de 1974, quando ainda Portugal detinha responsabilidades sobre aquele território, perante a nossa estranha indiferença e a criminosa demissão de um povo, permaneceu em cativeiro quase uma DEZENA DE ANOS.
Foi enxovalhado, passou maus-tratos, sofreu sevícias, foi espancado pela sua colaboração com PORTUGAL.
A tudo sobreviveu graças à extraordinária força moral interior e à grandeza de alma que tem. Sem nunca esquecer nem amaldiçoar os portugueses e Portugal, acredita que estes ainda o vão recompensar pela sua lealdade.
Aquele que foi e continua sendo um valor moral da nação, que orgulhosamente ostentava no peito uma Cruz de Guerra, que tinha louvores e citações de combate, que havia sido tratado com todas as honras quando da visita a Portugal agraciado com o prémio Governador da Guiné que se vê deslocado e sem terra, sem família, sem direito ao trabalho, sem meios de subsistência, desprezado pelos seus iguais e abandonado pelos brancos metropolitanos que na sua loucura vanguardista e revolucionária nem português lhe deram a hipótese de o ser, ainda acredita em Portugal.
Aquele que um dia o Exército Português promoveu por distinção a 1º cabo por feitos em campanha deixava de contar no seu efectivo. Pura e simplesmente deixou de existir.
Sobreviveu à matança que se abateu sobre as tropas africanas. Sobreviveu às sevícias e aos horrores que passou nos calabouços do PAIGC. Suportou o desdém e a desforra do inimigo.
Graças a tenacidade e empenho dos antigos oficiais e sargentos que nunca o esqueceram conseguiu ao fim de largos anos rumar a Portugal. Onde continua a ser por estes ajudado.
Velho, doente e cansado pouco podem estes fazer do muito que lhe é merecido e do que tem direito.
Não podem no entanto substituir Portugal na reparação dos erros que sofreu.
Julgo que já é altura de se reparar a imensa tragédia e a vergonhosa injustiça que sobre este homem se exerceu.
Que lhe seja atribuída a pensão por serviços relevantes prestados ao país, que lhe seja reconhecido o estatuto de prisioneiro de guerra, como na realidade o foi, ou que lhe seja concedida a pensão das cruzes de Guerra, mas que finalmente se faça justiça reparando um erro que os conturbados tempos revolucionários pode explicar mas que já não o podem, nem a Instituição Militar legalmente estabilizada nem o poder político democraticamente eleito como representantes do povo português.
Que se assumam como responsáveis em nome de Portugal restaurando-lhe a dignidade como ser humano e mesmo sem esquecer a indignidade dos procedimentos, consiga repor um pouco do orgulho que sentíamos pela nossa condição de portugueses que se reviam na grandeza das acções e na nobreza das intenções dos seus antepassados.
Morreu quando Deus assim o determinou.
Que Deus o receba em paz.
Rui Ferreira, Alferes Miliciano na CCaç 1420/Capitão Miliciano na CCaç 18.
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