Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
5. Cerca de 97 mil milhões de capitais fugiram já de Espanha
Sandrine Morel
A Espanha está a fazer com que os investidores estejam a fugir. Cerca de 97 mil milhões de euros de capitais foram retirados do país no primeiro trimestre e destes 66 mil milhões só no mês de Março, de acordo com os dados divulgados na quinta-feira, 31 de Maio, pelo Banco de Espanha.
Legenda. Em Março de 2012, a Espanha registou um recorde com uma fuga líquida de capitais para o estrangeiro de 66,2 mil milhões , contra um saldo positivo de 5,38 mil milhões em Março de 2011. | AP/Paul White
Este registo histórico reflecte a desconfiança que se criou na economia espanhola. “Este desinvestimento é grave porque ele explica inclusive a queda dos valores bolsistas e a alta dos custos da dívida pública, diz Juan Carlos Martínez Lázaro, economista na IE Business School, mas recusando-se a falar de fuga de capitais.
“Não se trata tanto de retiradas de valores monetários dos particulares mas sim dos investidores financeiros que decidiram vender as suas acções nas empresas espanholas e os seus títulos de dívida pública e dos bancos que não conseguem refinanciar os empréstimos concedidos”.
Este valor não é menos preocupante. No mesmo período, em 2011, a Espanha tinha registado um saldo positivo da sua balança financeira de 20,80 mil milhões de euros. Mas depois a crise financeira acentuou-se e as dúvidas sobre a solvência do país e dos seus bancos deixam no ar a ameaça de um plano de resgate.
Sinal dessa falta de confiança, a parte da dívida pública espanhola pertencente a investidores estrangeiros caiu de 54% para 38% num só ano e para colocar os seus títulos a dez anos, a Espanha teria, quinta-feira, pago a taxa de juro de 6,5%.
OPERAÇÕES INTERBANCÁRIAS
A bolsa de valores, por outro lado, perdeu 30% desde o início do ano e destes 13% só no mês de Maio. O índice espanhol Ibex-35 desceu para o nível da Primavera de 2003, principalmente por causa da queda dos valores dos bancos afectados por dúvidas que pairam sobre o valor dos seus activos imobiliários e da sua capacidade para aplicar os dois últimos planos de reestruturação financeira que exigem deles qualquer coisa como 84 mil milhões de euros em provisões adicionais.
O título do Bankia, recentemente nacionalizado, perdeu 70% de seu valor, o Banco Sabadell 54%, CaixaBank 46%… A grande banca também sofreu: a acção Banco Santander perdeu 26,8% desde Janeiro, a do BBVA, 31,11%.
Outros sectores da economia espanhola não são poupados: a empresa de telecomunicações Telefónica perdeu 33% em cinco meses, o grupo petrolífero Repsol, afectado pela nacionalização da sua subsidiária na Argentina, caiu de 49%, a empresa de energia Iberdrola de 36%. E assim por diante.
No entanto, dos 97 mil milhões de euros de capitais que fugiram da Espanha, 75 mil milhões correspondem a operações interbancárias. Isso demonstra dois problemas. Por um lado, os bancos internacionais que operam na Espanha repatriam ou transferem os seus fundos para outros países por segurança. E, por outro lado, os bancos espanhóis são incapazes de refinanciar as suas dívidas que estão a atingir a data do seu vencimento e, por conseguinte, devem reembolsar os seus credores internacionais.
Quanto às retiradas de fundos pelos particulares e pelas empresas estas saídas atingiram EUR 2,90 mil milhões no primeiro trimestre, dos quais com quase metade em Março. É um volume limitado mas que poderá adquirir uma outra dimensão se persistirem as dúvidas sobre o sector financeiro.
De acordo com o ministro da economia, Luis de Guindos, que reclama um “mecanismo de injeção de capital nos bancos da União Europeia” e medidas para fazer baixar o custo da dívida, a hora é grave: “o futuro do euro vai-se jogar nas próximas semanas em Itália e em Espanha.”
Sandrine Morel (Madrid, correspondência), 97 milliards d’euros de capitaux ont fui l’Espagne au premier trimestre 2012, 1 de Junho de 2012.

