Enquanto o presidente da República espalha generosamente nos seus discursos verdades de La Palisse, banalidades (e recebe apupos e vaias), Mário Soares continua, noutro registo embora, a dizer o que é óbvio, sem adiantar soluções – e costuma dizer-se «quem detecta problemas, mas não lhes antevê soluções, faz parte do problema e não da solução». Afirmou ontem, em conversa com os jornalistas no final de uma sessão comemorativa da adesão do PS (ASP) à Internacional Socialista, que o país está actualmente pior do que há um ano atrás e advertiu que ainda ficará pior a prazo, se a política do Governo PSD/CDS se mantiver. E perguntamos: o que se propõe fazer o PS para evitar o caos que se avizinha.
“As pessoas, sobretudo quando se encontram desempregados, têm grandes dificuldades para dar de comer aos seus filhos e mantê-los nas escolas. Sinto que é preciso fazer projectos e planos para que as pessoas não sofram.
Acho que já se apertou o mais que se podia”. Soares sente e acha. Explicita ou implicitamente afirma que Sócrates não foi tão mau como Passos Coelho está a ser. Esquece que estamos a descer degraus de uma escada.
Se caíssemos no disparate de eleger Seguro, desceríamos mais uns degraus – António José Seguro tem tudo para ser ainda pior do que Passos Coelho: falta de carisma, falta de convicção e, principalmente, falta de honestidade política.
Honestidade política é coisa que não existe nas gentes do bloco central. Naturalmente que o neoliberalismo usa um dicionário diferente do nosso – honestidade é, por exemplo, distribuir cargos pelas clientelas e privilégios pelos amigos, pagando apoios passados e futuros; honestidade é obedecer a troikas, pagar dívidas contraídas na distribuição de cargos e privilégios, nem que para honrar os compromissos se tenha de sacrificar o povo que os elegeu por confiar nas falsas promessas da campanha. Mentir ao povo não é desonestidade – é marketing político.
É toda esta engrenagem que Mário Soares não denuncia. Porquê? Porque foi ele que há muitos anos atrás pôs esta bomba-relógio a trabalhar. Para combater o socialismo revolucionário, criou a imagem do «socialismo de face humana». Eufemismo que disfarça um animal voraz chamado «capitalismo selvagem».
Conclusão – o conteúdo das frases sérias de Mário Soares vale tanto como o das banalidades bacocas de Cavaco Silva.
