Obrigado a George Monbiot e a The Guardian
Nós, os britânicos, temos uma aptidão peculiar para branquear a nossa história colonial.
Artigo saído no Guardian em 24 de Abril de 2012
Há uma coisa que se pode dizer a favor dos que negam o Holocausto: pelo menos conhecem o que estão a negar. Para tentarem fundamentar as mentiras que dizem, têm de se envolver em zelosas falsificações. Para ignorar as atrocidades coloniais britânicas, não é necessário qualquer esforço parecido. A maioria das pessoas parece não estar consciente de que hajam coisas que requeiram negação.
A lenda do imperialismo benigno, cujo objectivo teria sido acima de tudo não dominar terras, trabalho e bens mas ensinar aos nativos inglês, boas maneiras à mesa e livros de contabilidade com duas entradas é um mito que foi cuidadosamente propagandeado pela imprensa de direita. Mas cujo poder deriva de uma notável habilidade de arejar e não fazer caso do nosso passado.
As revelações da semana passada, de que o governo britânico destruiu sistematicamente os documentos que incluíam pormenores sobre maus tratos aos naturais das suas colónias (1), e de que na altura o Foreign Office mentiu sobre um esconderijo secreto de arquivos contendo revelações, constituem em qualquer circunstância uma notícia importante. Mas ou foram ignoradas ou foram remetidas para uma nota de pé página na maioria da imprensa britânica. Não consegui encontrar qualquer referência ao arquivo secreto no site do Telegraph. No Mail só consegui achar um artigo de opinião de um historiador chamado Lawrence James, que aproveitou da ocasião que eventuais deficiências na governação das colónias foram da responsabilidade de “um punhado de inadaptados, incompetentes e brutamontes”, mas que a maioria eram “dedicados, leais e disciplinados”(3).
A ocultação de factos pelo governo britânico nem tinha grande interesse. Mesmo quando a documentação sobre grandes crimes é abundante, não se nega a sua existência, mas ignora-se pura e simplesmente. Num artigo saído no Daily Mail em 2010, por exemplo, o historiador Dominic Sandbrook proclamava que “O império britânico destaca-se como um farol de tolerância, decência e primado da lei… Nunca a Grã-Bretanha encorajou alguma coisa que se parecesse com as torturas horríveis cometidas na Argélia Francesa.” (4) Estaria ele realmente tão desinformado sobre a história que ele não reconhece?
Caroline Elkins, professora em Harvard, passou quase dez anos a compilar os factos que reuniu no seu livro O Gulag Britânico: O Fim Brutal do Império no Quénia (5). Quando começou a sua pesquisa acreditava em que o relato britânico sobre a repressão da revolta nos anos 1950 dos Kikuyu Mau Mau era bastante rigoroso. Na altura descobriu que a maior parte da documentação tinha sido destruída. Trabalhou com os arquivos que restavam, e passou 600 em entrevistas com sobreviventes Kikuyu – tanto rebeldes como fiéis à Coroa – e guardas britânicos, colonos e funcionários. O seu livro está extensamente documentado de princípio a fim. Ganhou o prémio Pulitzer. Mas para Sandbrook, James e os restantes apologistas do império, é como se nunca tivesse existido.
Elkins revela que os britânicos detiveram não os 80.000 Kikuyu que a história oficial refere, mas a quase totalidade da população, um milhão e meio de pessoas, em campos e aldeias fortificadas. Ali, milhares foram espancados até à morte ou morreram de subnutrição, tifo, tuberculose e disenteria. Nalguns campos quase todas as crianças morreram (6).
Os internados eram utilizados como mão-de-obra escrava. Os portões eram encimados com slogans edificantes, tais como Trabalho e Liberdade e Quem se ajuda a si próprio será ajudado. Alto-falantes transmitiam o hino nacional e exortações patrióticas. Pessoas consideradas como tendo desobedecido às regras eram mortas à frente das outras. Os sobreviventes eram obrigados a cavar valas comuns, que se enchiam rapidamente. Se o leitor não tiver um estômago forte previno-o que salte o próximo parágrafo.
Interrogatórios sob tortura eram generalizados. Muitos homens foram sodomizados, com facas, garrafas partidas, canos de espingarda, cobras e escorpiões. Uma técnica preferida era manter um homem de cabeça para baixo, com a cabeça mergulhada num balde de água, enquanto lhe calcavam areia para dentro do recto com um pau. As mulheres eram violadas em grupo pelos guardas. Pessoas eram maltratadas com cães e electrocutadas. Os britânicos criaram um instrumento próprio para ser usado, primeiro para esmagar e a seguir arrancar os testículos. Usavam alicates para mutilar os seios das mulheres. Cortavam orelhas e dedos aos internos e arrancavam-lhes os olhos. Arrastavam pessoas atrás dos Land Rovers até os corpos se desfazerem. Homens eram enrolados em arame farpado e impelidos à volta do recinto (7).
Elkins mostra uma abundância de factos suficiente para mostrar que os horrores dos campos tinham cobertura nos níveis mais elevados da hierarquia. O governador do Quénia, Sir Evelyn Baring, intervinha regularmente para impedir que os perpetradores fossem apresentados perante a justiça. O secretário colonial, Alan Lennox-Boyd, mentiu repetidamente na Câmara dos Comuns (8). Está-se perante um crime enorme, sistemático que nunca foi julgado.
É como se não tivesse importância. Mesmo os que concordam em como alguma coisa aconteceu escrevem como se Elkins e o seu trabalho não existissem. No Telegraph, Daniel Hannan mantém que só onze pessoas foram espancadas até à morte. Para além disso, “1090 terroristas foram enforcados e para aí 71.000 detidos sem o julgamento devido.” (9)
Os britânicos não contavam os cadáveres, e a maioria das vítimas enterradas em sepulturas não identificadas. Mas é evidente que dezenas de milhares, possivelmente centenas de milhares de Kikuyu morreram nos campos e durante os aprisionamentos. Hannan é um dos casos mais clamorosos de revisão da história que alguma vez encontrei.
Sem concretizar o significado do que diz, Lawrence James reconhece que, às vezes, eram usadas “medidas severas”, mas insiste em que “enquanto os Mau Mau aterrorizavam os Kikuyu, cirurgiões-veterinários do Serviço Colonial ensinavam os homens das tribus como lidarem com as epidemias que afectavam o gado.” (10) O roubo das terras e do gado dos Kikuyu, a fome e as matanças, o apoio generalizado entre os Kikuyu ao esforço dos Mau Mau no sentido de recuperarem as suas terras e a liberdade: foi um ar que lhes deu. Ambos insistem em que o governo britânico actuou no sentido de travar todos os abusos assim que deles havia notícia.
O que acho mais notável até nem é que escrevam semelhantes coisas, mas que as distorções que fazem fiquem quase sempre sem resposta. Os mitos do império estão tão enraizados que parece que branqueamos as histórias divergentes logo que são contadas. Na medida em que se vão juntando os factos sobre as fomes na Índia das manufacturas no ano de 1870 e seguintes (11) e sobre os procedimentos utilizados noutras colónias (12, 13), o imperialismo britânico vai-se revelando como não tendo sido melhor e, nalguns casos, mesmo como pior do que o imperialismo posto em prática por outras nações. Apesar disso o mito da missão civilizadora continua sem ser abalado pelos factos.
Referências:
1. http://www.guardian.co.uk/uk/2012/apr/18/britain-destroyed-records-colonial-crimes
2. http://www.guardian.co.uk/uk/2012/apr/18/sins-colonialists-concealed-secret-archive
3. http://www.dailymail.co.uk/debate/article-2131801/Yes-mistakes-stop-proud-Empire.html
5. Caroline Elkins, 2005. Britain’s Gulag: the Brutal End of Empire in Kenya. Random House, Londres.
6. Caroline Elkins, acima referida.
7. Caroline Elkins, acima referida.
8. Caroline Elkins, acima referida.
10. http://www.dailymail.co.uk/debate/article-2131801/Yes-mistakes-stop-proud-Empire.html
11. Mike Davis, 2001. Late Victorian Holocausts: El Nino Famines and the Making of the Third World. Verso, Londres.
12. Ver por exemplo John Newsinger, 2006. The Blood Never Dried: a people’s history of the British empire. Bookmarks, Londres.
e
13. Mark Curtis, 2007. Unpeople: Britain’s secret human rights abuses. Vintage, Londres

VIVA.Um exceptional trabalho de recolha de informação. Desconhecia este assunto, como certamente desconhecerei outros de igual natureza. Este, é um trabalho sério que deverá ser analisado com seriedade. Não conhecia este acontcimento aqui narrado, em particular, mas conheço outros. Recordo que durante a segunda guerra mundial Hitler escondido no sub-solo, disse para os seus oficiais: “Morreremos mas levaremos o mundo connosco”. Simplesmente criminosa esta obsrvação. Péricles o notável político ateniense que governou Atenas durante 15 anos seguidos, implementou a Democracia através de um gesto ditatorial ao afastar a aristocracia, tendo problemas nos últimos anos de governaçao . JESUS CRISTO veio dizer a mesma coisa que Péricles, seja, todos os Homens são iguais, todos são flhos do mesmo Deus, nenhuma diferença de natureza existe entre eles. Mas isto que foi dito há milhares de anos não chega para evitar situações como estas aqui relatadas. Resta-nos estar contra e discutir o assunto. Com honra e pela justiça social. Cump. JOÃO BRITO SOUSA