Hoje completam-se 300 anos sobre o nascimento em Genebra de Jean-Jacques Rousseau. Não destoará, para comemorarmos esta efeméride, referirmos que Vasco Pulido Valente, na sexta-feira passada, dia 22 de Junho, na sua coluna de opinião do Público, nos apresentou um texto intitulado Liberdade?. Terá sido um amigo que lhe sugeriu o tema, sob esta forma: “Gostam os portugueses da liberdade?” ou “Por que razão não gostam os portugueses da liberdade?” A seguir o comentador diz que primeiro seria preciso saber o que é a liberdade, e questiona se algum dia houve liberdade em Portugal. Evita o que chama grandes declarações de princípios, como a coexistência da liberdade com a igualdade. Depois desvia-se do assunto e vai até à crise que nos afecta, informando-nos que a esquerda atribui a crise ao “neoliberalismo” (as aspas são dele), que será outra forma de dizer liberdade e aos vícios que ele gera. A seguir, em tom irónico (pelo menos parece pretender ser irónico) vai procurando dar a entender que o que a esquerda pretende é não pagar as dívidas, deitar a Senhora Merkel abaixo, por aí fora. No fim, à laia de conclusão, sempre num tom que talvez pretenda irónico, afirma que o “neoliberalismo” só desaparece da face da terra quando a igualdade o remover. E remata assim: “quanto à liberdade do próximo, o próximo que se arranje”.
O ilustre comentador perdoará que se lhe diga: é óbvio que se trata de um tema que não lhe agrada. Qualquer um, dotado de um mínimo de consciência e de conhecimento do mundo, sabe que no mundo e na sociedade em geral, há quem defenda a liberdade, e dê menos valor á igualdade, de um lado, e do outro quem pense que o excesso de liberdade de uns redunda fatalmente na desigualdade. Entre os primeiros estão os que vivem em situações de privilégio, e sabem que só as podem conservar à custa de um grande número de pessoas com menos privilégios. Entre os segundos estão os que desejam que o comum das pessoas tenha mais privilégios, mesmo que para isso seja necessário reduzir os privilégios de alguns. Entre os primeiros enfileiram os neoliberais. Os segundos são a tal esquerda. Com certeza que muita gente, por diversas razões, tem relutância em tomar posição neste assunto, pelo menos de uma maneira clara.
Não se pode falar de liberdade, sem falar de igualdade. Estão interligadas. Durante a Revolução Francesa, isto já era percebido, de onde a fórmula liberdade-igualdade-fraternidade. São três princípios. Não existe um sem os outros dois. Nunca existirá. Vasco Pulido Valente sabe isto evidentemente. São coisas simples e básicas.
O liberalismo foi uma ideologia progressista na época em que surgiu, porque era preciso lutar contra uma sociedade arcaica, com uma estrutura muito rígida, ligada a princípios religiosos e preconceitos opressivos. Quando se compreendeu que é necessário dar prioridade ao combate às grandes desigualdades o socialismo apareceu com grande vulto no combate ideológico. A defesa da igualdade de oportunidades é um dos seus pilares básicos. Mas o conflito entre os princípios e a defesa de privilégios e prerrogativas continuou, e a camada dominante tradicional, reforçada com os grandes beneficiários do progresso tecnológico e da acumulação de riqueza quer continuar a manter as rédeas do poder, directamente ou por interpostas pessoas.
Uma das justificações que essa camada dominante, herdeira ideológica dos mentores do antigo regime aliados à burguesia formada a partir das revoluções liberais e industrial, apresenta para manter os seus privilégios é precisamente o seu direito à liberdade, a liberdade de acumular riqueza indefinidamente, e de a impor contra tudo e contra todos. Procuram fazer acreditar que essa manutenção é vantajosa para a sociedade em geral, e que não resulta de qualquer esquema ideológico. Em resumo, querem fazer-nos acreditar que o neoliberalismo, o egoísmo dos ricos, não existe. São uma invenção da esquerda. Será que Vasco Pulido Valente realmente acredita nisto? Ao fim e ao cabo, os neoliberais são os primeiros a não se preocuparem com a liberdade dos outros. Por isso rejeitam a igualdade. Nem querem que se fale do assunto.


O Vasco Pulido Valente … tem dias 😉