DIÁRIO DE BORDO, 2 de Julho de 2012

 

 

 

A Rio+20 acabou no passado dia 22. A comunicação social em geral não lhe deu muita atenção.  É verdade que anda emersa em temas muito pesados como a crise económica, o drama europeu, o sistema de saúde norte-americano e o campeonato europeu de futebol.  Mas esta menorização da importância daquela cimeira é um indício sério de que, apesar das muitas declarações de boas intenções, grande parte dos povos do mundo, aliás a sua maior parte, continua a ocupar um papel menor no palco mundial.


É verdade que o Brasil ganhou prestígio com esta cimeira. Alguém (Nicholas Lehmann, no New Yorker, citado pelo Le Monde) assinalou que se no país o crime é elevado, as estradas e os portos estão em mau estado e o sistema escolar é fraco, contudo o crescimento económico é forte (ao contrário do que se passa nos EUA e na Europa), há liberdade política (Diário de Bordo está a citar), ao contrário do que se passa na China e as desigualdades diminuem (neste aspecto haverá alguma verdade, e vai em sentido contrário do que se passa noutros países, incluindo Portugal). Todos estes aspectos, com as necessárias reservas (não esquecer a intensa exploração dos recursos naturais e o baixo custo da mão de obra, elementos chave do crescimento económico do país), são importantes, mas não devem ocultar o essencial: os resultados práticos da cimeira não foram nada do que se pretendia porque os países mais poderosos economicamente não estão dispostos a abdicar das vantagens de que têm usufruído, nomeadamente as suas classes dirigentes. Continua a não haver acordos significativos sobre o efeito estufa, não se consegue sequer a criação de uma agência do ambiente ao nível da ONU e a chamada economia verde vai invadir cada vez mais os sectores da produção directamente relacionados com a natureza, o que vai acelerar  a desflorestação e a desertificação, para além de outros efeitos, como ao nível do agravamento dos preços dos produtos agrícolas. A ligação do combate á pobreza à defesa do ambiente é importante, mas tem de ser perspectivada na prática.


Alguns comentam que os países mais desenvolvidos, com a crise actual, não podem aceitar o agravamento dos seus custos de produção. Tem que se concluir que, assim, arranjam maneira de exportar, não só os problemas ambientais, como também a crise económica para os países menos desenvolvidos. Isto enquanto, nalguns países, como em Portugal, a factura da electricidade dos indivíduos e famílias é onerada brutalmente recorrendo a vários pretextos, entre eles o da implantação das energias renováveis.


Mas se a Rio+20 não teve grande acompanhamento pela comunicação social, a Cúpula dos Povos, realizada simultaneamente no Rio de Janeiro, teve muito menos. Contudo, conforme assinala Boaventura de Sousa Santos (Visão, 28 de Junho): foi a expressão da riqueza de pensamento e das práticas que os movimentos sociais de todo o mundo estão a levar a cabo para permitir que as gerações vindouras usufruam do planeta em condições pelo menos iguais às de que dispomos. O nosso compatriota não exagerou. Najar Turbino (ver http://roadlogs.rio20.net/pt-br/vitoria-do-ativismo-na-cupula-dos-povos/) informa que estiveram presentes 14 mil activistas, representando sete mil organizações não governamentais, de várias dezenas de países. Vejam as conclusões finais em http://cupuladospovos.org.br/wp-content/uploads/2012/06/Carta-final_Cupula-dos-Povos.pdf.

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