O fim desta zona Euro tornou-se visível. Apenas o como e o quando chegará a sua dissolução é o que permanece incerto.
Um texto a partir de um outro, de Fabius Maximus de 6 de Junho de 2012
(continuação)
Uma curiosidade para mostrar a importância do mark to market em período de crise, em período de deflação. Repare-se, os activos são definidos, título a título pelo seu valor de mercado, dependendo-se assim constantemente das oscilações de mercado. Daí o poder-se dizer que a carteira de capitais próprios [1]é ela uma variável dependendo das variações de mercado e é o valor desta carteira que é contraposto aos encargos já assumidos e considerados fixos ao longo do tempo, as responsabilidades das respectivas instituições. Imaginemos pois numa instituição financeira o valor dos depósitos no seu balanço inscritos e portanto nominalmente fixos que são sucessivamente confrontados com os capitais próprios dos bancos quando estes pela razão que temos vindo a expor são altamente voláteis. Em cada momento do tempo, o momento t0, as instituições são obrigadas a posicionarem-se com posições financeiras relativas a momentos do tempo diferentes, os encargos anteriormente assumidos, a que chamamos o tempo passado, t (-1), contra o valor que hoje é dado à sua carteira de títulos, os seus capitais próprios, a que chamamos o resultado das perspectivas instantâneas do tempo futuro, uma vez que o valor desta carteira depende das expectativas do tempo futuro, t(+1),- Teremos assim encargos fixos, as responsabilidades assumidas do passado, a serem confrontados, com as disponibilidades futuras, o valor dos activos em carteira, variáveis, portanto. Em tempos de crise esta diferença de valores resultado de tempos economicamente diferentes, tempo passado e tempo futuro, pode ser para cada momento presente bastante avassaladora, geradora de fortes turbulências para a instituição em causa e a exigir-lhe recapitalização imediata. Foi o que se verificou com a crise de Agosto de 2011 em que grande parte das instituições europeias de grande porte estiveram altamente em risco.
A adicionar a este colete-de-forças, estabelecido pelo triângulo, a especulação, o mark to market, as políticas de austeridade, tudo isto a conduzir um qualquer sistema, em tempo de crise, para uma espiral infernal, donde sozinho não se pode sair, um pouco como no filme Dr. Estranho Amor onde o presidente dos Estados Unidos se interroga “Mas como é possível que este mecanismo possa ser activado automaticamente e ao mesmo tempo impossível de desactivar?” e a quem Peter Sellers, o Dr. Estranho Amor responde: “Senhor Presidente, isto não é só possível, é essencial que assim seja. Sabe, esta foi a ideia para esta máquina.” A máquina do Juízo Final, a impossibilidade de sair de dentro desta máquina, é disso que aqui se fala, a impossibilidade de sair de dentro do triângulo referido, a impossibilidade de sair de dentro deste sistema, é o que queremos afirmar. E tanto mais assim, quando este triângulo representa o espaço de uma dança infernal dançada a um ritmo determinado pelas agências de notação, o chefe de orquestra, pelo papel que o próprio sistema lhe atribuir, que é o de marcar a música o ritmo a que a dança deve ser dançada e o de escolher o ponto desse triângulo onde ela se deve iniciar, Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha, Itália e quem se segue, depois? Não nos podemos esquecer de um dos exemplos para mim mais emblemáticos: em dado momento foi aquele em que a Standard and Poor’s baixa a notação de Espanha porque o seu crescimento esperado, pela agência, na sua revisão de expectativas tinha baixado de uma décima! Os Estados são penalizados se prosseguem uma política de expansão, de crescimento, porque este aumenta o défice, são penalizados se prosseguem políticas de austeridade a reduzir o défice porque estas reduzem o crescimento! São penalizados os Estados porque ajudam a banca, porque aumenta a dívida, são penalizados os bancos se ajudam os Estados, porque baixam os seus fundos próprios pela desvalorização dos seus activos, avaliados mark to market, e a dança, macabra, esta continua e até onde?
Vejamos o que nos dizem analistas de UBS :
“Federação Orçamental, não fragmentação da zona euro
No nosso caso em que há uma esmagadora probabilidade de que o Euro se mova lenta (e dolorosamente) para algum tipo de integração orçamental. O caso de risco, de ruptura, é consideravelmente caro e portanto de probabilidade próxima de zero. Os países não podem ser expulsos, mas os Estados soberanos poderiam optar por se separarem. No entanto, uma alargada discussão sobre a opção de desmembramento consideravelmente subestima as consequências de tal movimento.
O custo económico (parte 1)
O custo de um país fraco abandonar o Euro é significativo. As consequências incluem incumprimento sobre a dívida pública, colapso do sistema bancário e colapso do comércio internacional. Há poucas perspectivas de que a desvalorização ofereça uma grande ajuda. Estima-se que um país da zona euro abandone esta zona teria um custo de cerca de 9. 500 por pessoa no país durante o primeiro ano. Esse custo então provavelmente poderá significar 3.000 a 4.000 por pessoa por ano nos anos subsequentes. Isso equivale a um intervalo de 40 a 50% do PIB no primeiro ano.
O custo económico (parte 2)
Seja um dos países mais fortes, como a Alemanha, por exemplo, a deixar a zona euro, e as consequências poderiam incluir incumprimento, necessidades de recapitalização do sistema bancário e colapso do comércio internacional. Se a Alemanha saísse da zona euro, acreditamos que o custo por alemão adulto andaria situado entre 6. 000 a 8, 000 para cada alemão adulto e criança no primeiro ano e um intervalo de 3, 500 a 4, 500 por pessoa, por ano, depois. Isto seria equivalente de 20 a 25% do PIB no primeiro ano. Em comparação, o custo de resgatar a Grécia, Irlanda e Portugal inteiramente e na esteira do incumprimento destes países seria um pouco mais de 1, 000 por pessoa, de uma só vez.
O custo político
O custo político é, em muitos aspectos, a última das preocupações que os investidores poderão ter quanto à possibilidade de uma fragmentação da zona euro. A fragmentação da zona euro teria custos políticos. A importância internacional “soft” da Europa cessaria, como perderia significado o conceito de “Europa”, como sendo a expressão de uma política integrada deixaria de ter qualquer sentido. Também vale a pena observar que quase nenhuma moderna união monetária assente numa moeda sem valor intrínseco se fragmentou sem a seguir não se tenha verificado alguma forma de governo autoritário ou militar, de ditadura, ou até mesmo guerra civil.”
Sublinhemos para já a expressão alguma forma de ditadura e sem nenhuma guerra civil. Mas os nossos analistas da UBS continuam a desenvolver este último ponto e vale a pena uma leitura atenta:
“A fragmentação de uma união monetária sem guerra civil?
A dissolução de uma União Monetária é um acontecimento muito raro. Além disso, a dissolução de uma União Monetária com um sistema de moeda sem valor intrínseco é extremamente fora do comum. O desaparecimento de países em regime de câmbios fixos sempre houve. As uniões monetárias que assentavam em pagamentos em espécie fragmentaram-se –a União Monetária Latina do século XIX, fragmentaram-se várias vezes-, mas devem ser encaradas mais como se se tratasse de ajustes da taxa de câmbio fixa. Os países entraram e saíram do sistema padrão, sistema ouro ou prata ou bimetal e ao fazerem-no assim quebraram os laços com as moedas de outros países.
Se considerarmos a fragmentação de uma união monetária assente numa moeda-papel é justo dizer que as circunstâncias económicas que criam um clima para uma dissolução e as consequências económicas se lhes que seguem são de facto muito graves. É preciso um esforço enorme para um governo chegar ao ponto que o leva a considerar ter que abandonar o lex monetae de um país. A perturbação que se seguiria a uma tal decisão também vai ser extrema. Os custos são muito altos – seja o país um país forte seja um país fraco, em termos puramente monetários. Quando as consequências do desemprego são levadas em conta é praticamente impossível considerar um cenário de desmembramento sem algumas consequências sociais bem graves.
Com esse grau de gravidade em termos económicos e sociais, os paralelos históricos são desagradáveis. Os exemplos passados de rupturas de União monetária tendem a produzir um dos dois resultados seguintes, ou houve uma resposta mais autoritária do governo para conter ou reprimir a desordem social (um cenário que tende a exigir uma mudança de regime democrático para regime de governo autoritário ou militar), ou alternativamente, a desordem social instalada pelos disfuncionamentos criados levou divisão do país e acabando por dar origem a uma guerra civil . Estas não são conclusões inevitáveis, mas indicam que uma dissolução de uma união monetária não é qualquer coisa que possa ser tratada como uma saída banal da política cambial.”
[1] Sublinhe-se que o capital próprio de um banco tem a seguinte composição:
Capital próprio = Capital social – Imparidades nos valores dos activos + Reservas
Destas três parcelas, a segunda (imparidades) é fortemente afectada pelas variações dos preços de mercado dos títulos que os bancos tenham em carteira e pelas provisões para créditos mal parados. Quando, por causa do aumento das imparidades, os capitais próprios ficam abaixo dos limites exigidos pelas autoridades de supervisão, os bancos vêm-se obrigados a aumentar o capital próprio.
Agradeço esta nota a José da Silva Lopes, a quem solicitei a leitura destes excerto do texto. José Silva Lopes sugeriu-me que tivesse em conta a situação espanhola onde a questão se coloca agora com grande acuidade. Porém, como a tratámos numa longa série sobre Espanha, é portanto questão que aqui não desenvolvemos.
