Um Café na Internet
Orlando da Costa publicou no ano 2000, na editora Âncora, O Último Olhar de Manú Miranda, um romance situado em Margão de 1918, ano do nascimento do protagonista, até à integração na União Indiana. Este romance conta a formação de Manú Miranda, o mais novo de uma fratria com dois rapazes e uma rapariga, órfão, cristão, de linhagem nobre e abastada, criado por duas tias que almejam um sobrinho bispo, protegido por uma “aiá” com crenças indús e pelo tio Roque Sebastião Miranda, respeitável “gãocar” que acaba por lhe legar a fortuna, o diário e o desespero. A ação construi-se com a memória do protagonista, não obstante as suas evidentes deficiências. A primeira frase logo o anuncia: “Envelhecera, sem dúvida, mas o pior é que já não se dava conta das vozes adormecidas na sua memória.”
A narração tem estrutura circular, partindo do presente quase desmemoriado de Manú Miranda para a ele voltar, passando pelo que o precede, rodeia e vai formando. O leitor acompanha portanto a infância e a mocidade de Manú Miranda através de Goa, seus habitantes, alguns deles, reais, como Panduronga, o carteiro, Mauzó, o fotógrafo, Valadares, o fabricante de caixões, outros mais do que isso: ficcionais. As tias beatas Inês Benigna e Leonor Benigna. O padre Vicentinho. O enigmátio Roque Sebastião. Cacildinha, Liliana, Quitrú, Juliana, Carolina… O indú Xricanta, nascido à mesma hora do mesmo dia e, na crença da aiá, o outro corpo de Manú: “uma alma única repartida por dois corpos”. Descobre tecas, arrozais, palmeiras, chicús, cajueiros, mangueiras, solares indo-portugueses com varandins de madeira talhada, procissões, superstições, banquetes, palavras goesas, gaddó, vossoró, carepas, nomes singulares, Ubaldino Antão, Ligorinho Furtado, Aniceto Condorcet Pereira, topónimos familiares, Mapuçá, Mormugão, Salcete, Aguada, Colvá, Cortalim… E sucessivas interrogações. E um sereno desespero.
Ninguém ignora que esta civilização, nascida do confronto da cultura europeia com a indiana, refinada ao longo de quatro séculos, se viu condenada a desaparecer: alguns dos seus representantes vieram para Portugal, aqui criaram filhos portugueses, outros permaneceram em Goa, onde tiveram filhos indianos. Lemos na última página: “Não chegou a ter do fim do império luso, de que episodicamente fizera parte, qualquer visão apocalíptica, como nunca chegará a pronunciar com igual e total indiferença as palavras invasão e libertação, ao pensar no novo destino já traçado para a sua terra natal.” O último olhar de Manú Miranda é retroversivo pois, como goês, não pode avançar. Orfeu perdeu a amada por olhar para trás, Manú Miranda perde-se a si mesmo, não por olhar para trás mas, por a História lhe negar o futuro, até a memória ele corre o risco de perder: um romance belo e trágico.

