Texto para uma bênção a esta Europa já às portas da morte – IV

Por Júlio Marques Mota

 

O fim desta zona Euro tornou-se visível. Apenas o como e o quando chegará a sua dissolução é o que permanece incerto.

 

Um texto a partir de um outro, de  Fabius Maximus de   6 de Junho de 2012 

 

(continuação)

 

Bem, a conclusão que daí tira a UBS é imediata: A única maneira para se proteger contra um cenário de dissolução da zona euro é não ter nenhuns activos em euros.


Em vez de um cerrar de fileiras entre dirigentes políticos e populações exigindo-se alguma dureza contra os mercados, os dirigentes europeus optaram pela situação inversa, pela subordinação total aos mercados. As decisões graves só funcionam quando os líderes nacionais e o povo as defendem, mas estas decisões graves e importantes em termos de projecto nacional e regional não existiram, mas não se veio a verificar nenhuma situação grave de ruptura com o sistema que conduziu à crise. Não, não foi nada disto que aconteceu. Em vez disso, obrigaram-se, inclusive, os governos nacionais a aprovarem programas nas costas dos seus povos dos seus parlamentos. Lembram-se do famoso PEC IV e de todos os outros que se lhe seguiram? Lembram-se de todos os que ainda estão à espera de serem aprovados pelos Parlamentos nacionais, como o MEE, por exemplo, que ainda não entrou em vigor para salvar a Espanha, lembram-se ainda do novo Tratado que lhe serve de suporte, o TCE? Tenhamos presente inclusive o clima de medo e de chantagem que a União Europeia enquanto Organização Regional tem exercido  sobre os povos europeus, sobre a Irlanda, sobre a Grécia, sobre Portugal, sobre a Islândia, etc.. Os dirigentes políticos e povos tornaram-se duas coisas incompatíveis. As manifestações nas ruas, nas minas, nas fábricas, começam a mostrá-lo, começam a dizer que não a esta Europa da austeridade e do desemprego, enquanto que a legislação europeia a confirmar as políticas de austeridade pelos tecnocratas concebidas em Bruxelas, feitas nas costas dos Parlamentos e a estes depois impostas, são disso um claro exemplo, a mostrar que povo e dirigentes políticos estão de costas voltadas uns para os outros.

  

Os nossos dirigentes não querem mais União, (para evitar a guerra e controlar o seu destino num mundo de gigantes), num mundo tripolar, digamos, mas o que fazem   tem  exactamente o efeito inverso, a subalternização da Europa no mundo, com o perigo adicional de nem se saber  a quem, com o perigo portanto de nem sabermos quem serão concretamente os novos verdadeiros adversários contra quem nos deveremos então de preparar: a China, os EUA, a India, um mercado mundial sem rei nem roque quando se sabe que a desordem é sempre pior que uma má ordem? Não, eles não querem mais União, os nossos dirigentes, porque a Alemanha Imperial o não quer também,  não querem que o que se passa com  os pagamentos de transferência (por exemplo, como os impostos de Califórnia podem ser gastos no  Mississippi ou no  Novo México), não, eles não querem o controle central da despesa pública na base de um Orçamento central, organizado  pela União, não, eles não querem a solidariedade institucional, com  tudo o que isso implica.


A ciência política é, em certo sentido, o estudo de como as pessoas resolvem as incompatibilidades entre valores e objectivos no quadro de sociedades politicamente organizadas. A Europa tem sido incapaz de o fazer desde há quatro anos. Nada pode ser feito até que eles resolvam esta quadratura do  círculo acima explicitada.  A actual UEM é bem precária e já com meio caminho andado, é agora uma casa em ruinas. A Europa deve unificar-se ou dividir-se mas aparece como incapaz de uma coisa ou de outra. Como sublinha Edward Hugh a zona euro aparece como uma máquina infernal em que se morre porque dela se faz parte, em que se morre se dela se quiser sair. A lembrar no fundo a letra da canção Califórnia Hotel, dos Eagles:

 

‘We are all just prisoners here, of our own device’

“And in the master’s chambers,

They gathered for the feast

The stab it with their steely knives,

But they just can’t kill the beast

 

Last thing I remember, I was

Running for the door

I had to find the passage back

To the place I was before

‘Relax,’ said the night man,

We are programmed to receive.

You can checkout any time you like,

but you can never leave!”

 

Cada situação de crise oferece uma boa oportunidade para se tomarem  medidas decisivas, mas o consenso político necessário permanece completamente indefinido, senão mesmo ausente. Entretanto, os dirigentes políticos da Europa ficam todos muito juntinhos a querer tapar as rachas cada vez mais largas na UEM enquanto estão a pensar sobre o “futuro” da própria Europa  (ou seja, expresso pelo Tratado sobre Estabilidade, Coordenação e Governação na União Económica e Monetária) mas pensam-no apenas pela intensificação das ferramentas de política económica que levaram a União ao caos económico e político actual, pensam-no assim enquanto pelas suas próprias decisões esta se vai afundando cada vez mais, se vai tornando cada vez mais moribunda. Pensam-na, possivelmente como o chefe de orquestra do Titanic poderia pensar o futuro a tocar  o hino  “Nearer My God To Thee”, ou o hino  “Autumn” (também conhecido por  “Song d’Automne”, com o barco a afundar-se, no fundo a  evitar que se assustassem com o fundamental.


Isto é, provavelmente, tudo o que eles podem fazer agora no quadro da máquina criada e ardentemente mantida, exactamente como no excerto da canção dos Eagles anteriormente citada. Muitas pessoas acreditam que os dirigentes têm a capacidade de moldar a opinião pública e eles próprios, os dirigentes, acreditam nisso, mas parecde-nos que estes mesmos começam a ser moldados pelo sistema que conceberam e que já não dominam. A lembrar outras histórias de terror.  Um grande corpo de trabalhos científicos mostra que isso não é verdade. Pelo contrário, frequentemente são os acontecimentos que moldam a opinião pública; o teatro político e os belos e ocos discursos muito raramente o fazem e quando o fazem é normalmente sinal de muito perigo, muito mesmo. Disso o texto da UBS anteriormente citado  quando nos diz  “Quando as consequências do desemprego são levadas em conta é praticamente impossível considerar um cenário de desmembramento sem algumas  consequências sociais bem graves.” E o que nos diz é bem claro. Se olharmos agora para Espanha com os mineiros já na rua a caminho de Madrid, com o país à beira de um resgate que o governo teima em dizer que não há, que nem pode haver, talvez porque se considerem grandes demais para serem resgatados, grandes demais para serem abandonados aos capitais que nos mercados de capitais tudo devoram, veja-se então um dos seus  retratos e este tem como   subjacente um  governo que mais parece um bando de gente atordoada que terá saído de uma festa e se depara com a realidade que não entende, que nunca será capaz de entender.  Veja-se o desemprego, por exemplo:

 

 

 

Relembremos ainda, por exemplo, que em Espanha estamos perante mais de 1,5 milhões de lares em Espanha estão agora sem ninguém com trabalho e em que já esgotaram os seus direitos aos subsídios de desemprego. Estas famílias simplesmente vivem de poupanças, de apoio familiar e dos 420 euros de rendimento mínimo mensal.

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