Diário de bordo de 9 de Julho de 2012

 

 

Tinha de ser – alguma vez teríamos de estar de acordo com o presidente do Governo Regional da Madeira. Ontem, Alberto João Jardim, defendeu que o regime político deve ser substituído por outro porque o actual colocou Portugal sob administração estrangeira. Concordamos inteiramente. Mas acrescentamos – precisamos de outro sistema que, além de salvaguardar a soberania e a independência nacionais, não permita que gente grosseira, ignorante e pouco honesta ascenda a cargos da alta hierarquia do governo central ou das regiões. Com ou sem licenciatura.

Num exemplo da falta de isenção, o professor e conselheiro de Estado Marcelo Rebelo de Sousa  deu ontem à noite uma ajuda ao governo. Com o ar compungido, disse que a decisão desta semana do Tribunal Constitucional ao chumbar os cortes de subsídios dos trabalhadores do Estado e dos pensionistas, dá “um grande álibi” ao Governo para cortar nos subsídios dos privados. Depreende-se que na sua opinião, para não ajudar o governo o TC deveria ter concordado na violação da Constituição. Como é que este homem diz uma barbaridade destas?  O jogo é claro, o governo usa mais uma vez o truque de banalizar as violências que vai cometer e quando consuma os seus actos de insensível terrorismo, as vítimas já estão à espera. Foi assim com o corte dos subsídios – espalhada a notícia, Passos Coelho desmentiu o «boato» e depois foi o que se sabe. Marcelo Rebelo de Sousa fez a sua parte – a culpa foi do TC.O TC, quanto a nós, só cometeu o erro de aceitar o corte nos subsídios a funcionários públicos e a pensionistas. Aceitar a política de facto consumado foi um erro, pois constitui um precedente. Mas esse erro passou em claro ao conselheiro.

 

A novela da licenciatura de Miguel Relvas continua. O ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, durante todo o seu breve discurso na cerimónia de abertura da VIII edição dos jogos da Comunidade Portuguesa de Língua Portuguesa (CPLP), em Mafra, foi interrompido por vaias. Mas não há sintomas de vergonha. «Em Portugal assistimos a faltas de vergonha de titulares de cargos políticos que querem ser doutores de qualquer maneira», disse Jorge Miranda, num colóquio da Associação de Juristas de Língua Portuguesa. É um caso de alguma gravidade, não tanto pelo facto em si, mas pela distorção cultural que revela – a necessidade de à outrance obter diplomas para poder desempenhar cargos ministeriais – mesmo que a esses diplomas não correspondam quaisquer competências. Os casos conhecidos, de Varas a Relvas, passando por Sócrates e por Passos Coelho, indiciam uma quantidade preocupante de outra situações que, por menos mediáticas, ficam na sombra. Mas Relvas tem sido uma mina para cartoonistas e fabricantes de anedotas. Algumas com muita graça, mitigando as nossas tristezas.

 

Mas triste mesmo é  a notícia de que Gabriel García Márquez não vai voltar a escrever, depois de lhe ter sido diagnosticada demência. García Márquez perdeu a memória, mas deixa-nos um mundo maravilhoso, uma torrente de personagens exemplares. Heróis e heroínas, tiranos e filósofos, déspotas e libertadores. Gente cujo mundo não é deste reino, como diria João de Melo.  
 

Leave a Reply