Diário de bordo de 13 de Julho de 2012

 

O famoso físico britânico Stephen Hawking não pára de nos surpreender e de nos demonstrar que a inteligência e a capacidade de criar constituem o traço dominante do homo sapiens. Quase totalmente paralisado por uma distrofia neuromuscular, a chamada Esclerose Lateral Amiotrófica, está a experimentar um  aparelho que permite transformar pensamentos em discurso. O I-Brain (assim se chama o invento de Hawking) grava a actividade cerebral a partir de um determinado ponto, usando depois um algoritmo para extrair informação dessa actividade.  O cientista já só pode comunicar através de contracções que vão seleccionando palavras num  monitor, palavras que se vão transformando em conceitos, conceitos que configuram  projectos… Uma maneira lenta de criar e que demonstra a tenacidade de Stephen Hawking. E que, num mundo onde tudo parece estar a correr mal, constitui uma pequena luz ao fundo de um muito extenso túnel.

 

Não podemos prever o que, em matéria científica e tecnológica, vai ser o futuro. Nunca foi possível. Basta ver as previsões de há cem anos para a vida no século XXI – fazem-nos sorrir as engenhocas que se imaginavam. Porque o que se projecta no futuro é quase sempre o desenvolvimento de tecnologias da actualidade – daí as tais previsões baseadas sobretudo no avanço da arquitectura e na engenharia do ferro, com pontes gigantescas a atravessar os oceanos e cúpulas protegendo cidades – com estruturas em «arte nova»…

 

O avanço faz-se também de rupturas, de mudanças súbitas de direcção, que surpreendem, pelo menos os não-cientistas. Hawking, um homem «incapacitado», ao pé do qual as doenças que afligem a maioria de nós não passam de pequenas constipações, demonstra-nos que pode haver um desenvolvimento no sentido de colocar a actividade cerebral no primeiro plano das nossas funções vitais. Talvez até mesmo criar  uma inteligência colectiva que, a todo o momento, saiba o que a Humanidade no seu conjunto deseja.

 

Como pareceria ridículo, perante o juízo dessa inteligência, tudo o que nos dias de hoje nos ocupa os pequenos cérebros individuais – religiões, ideais políticos, anseios corporativos, sociais, tribais… 

 

Não sabemos se o I-Brain será concretizado e se terá consequências. O perigo de Stephen Hawking  não  conseguir levar até ao fim este seu invento existe. Mas é aliciante pensar que no futuro talvez possamos comunicar através do pensamento, que a informação do cérebro pode ser convertida em discurso ou em texto. O campo de manobra para a mentira ficaria muito reduzido. A vontade colectiva prevaleceria, numa forma suprema de democracia.

 

Mas estas preocupações correspondem talvez às projecções que na Belle époque se faziam para o nosso tempo – para esta nossa péssima época, previam aquilo que na altura era moderno  – o reflexo da Natureza consubstanciado em flores de vidro e ferro. As previsões do futuro são apenas maneiras de suportarmos o presente. E num presente tão feio, dominado por imbecis e por crápulas, sabe bem pensar que no futuro será gente como Hawking, cérebros como o dele, a pautar os comportamentos e a definir a ética.

 

 

1 Comment

  1. Sim, senhor, bem dito. Só uma pequena nota: as mudanças súbitas de direcção, as rupturas, surpreendem sempre os cientistas. Tanto que são os primeiros a reagir a elas, e lá vem depois a mudança do paradigma. Mas nunca sem reacção. Não me canso de recomendar, sobre este processo, o magnífico livro de Thomas S. Kuhn “A Estrutura das Revoluções Científicas” (Guerra & Paz) que se lê com muito agrado e que, apesar de publicado em 1963, é já hoje considerado um clássico.

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