Diário de bordo de 15 de Julho de 2012

 

 Já aqui foi dito que somos um blogue intimamente ligado à Grécia – à Antiga por razões evidentes e à actual por razões menos mitológicas. Hoje vamos falar (mais uma vez) de mitologia – falaremos da Hidra. Nascida de dois monstros, a Hidra vivia num pântano, e ostentava sete, nove ou mais cabeças de cujas bocas saía um hálito venenoso. Se alguma cabeça era cortada, logo se regenerava, surgindo com outro aspecto. Só quando Hércules cortou todas as cabeças no mesmo ataque à besta e lhe destruiu o coração, a hidra morreu. Mais ou menos isto.

 

Ontem passou mais um aniversário sobre a tomada da Bastilha. Foi sobretudo um acto simbólico, pois dentro da prisão estavam apenas sete encarcerados. O 14 de Julho, la fête de la Fédération é o dia nacional de França. O que nos mostra a importância dos actos simbólicos. Porém, há actos simbólicos que provocam ondas de choque – como foi o caso da queda da Bastilha, cujo estrondo ecoou por toda a Europa, de Portugal à Rússia imperial. Outros há que se transformam em meros actos litúrgicos, sem qualquer impacto ou reflexo no quotidiano de quem os celebra. Do 14 de Julho, como do 25 de Abril, haveria que saber extrair o essencial. 223 anos depois de ter eclodido em França um acto revolucionário de proporções gigantescas, França é um perfeito ninho da burguesia; se algo caracteriza a França de hoje é o de ser um dos pilares do sistema cujo advento se tentou evitar em 1789. França, com a Alemanha e com a Grã-Bretanha, são os principais aliados de uns Estados Unidos onde o espírito de 4 de Julho de 1776 se esvaiu, dando lugar ao coração da maior tirania que a história regista.

 

E nós? 38 anos depois do nosso Abril, o que resta? Restava uma Constituição incompleta e um conjunto de direitos que designávamos por «conquistas de Abril». Como folhas secas nas páginas de um diário de uma solteirona sentimental que alguém de espírito prático descobre e, em nome da higiene, sacode para o lixo.

 

Comemorar o 14 de Julho e o 25 de Abril? Certamente. No entanto,  o verdadeiramente importante seria sacudir para o lixo esta gente que, pelo mundo fora, sempre em nome da Democracia, vai juntando as peças de um puzzle maldito – o retrato de corpo inteiro da hidra da opressão. Os actos simbólicos são importantes. Mas a hidra adora actos simbólicos – associa-se alegremente a eles, mastiga-os e cospe-os.

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