Os dois irmãos Taviani – Vittorio, de 1929; Paolo, de 1931 – desde há muito habituaram os amantes do bom cinema, aquele a um só tempo de grande força poética e político, ao encontro com várias formas de obras-primas cinematográficas: “San Michele aveva un gallo” (1971), “Allonsanfan” (1974), “Padre padrone” (1977), “La notte di San Lorenzo” (1982), “La Masseria delle Allodole (2007) e agora, neste 2012, com “Cesare deve morire”, livremente a partir do drama-histórico de Shakespeare, Júlio Cesar.
Super-premiado, “Cesar deve morrer”, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim-2012 e do maior prêmio cinematográfico italiano, o David di Donatello, como o melhor filme do ano, representa sem dúvidas uma magnífica obra do mais recente cinema italiano, testemunho de uma nova fase de alta criatividade do mesmo. A já longa história cinematográfica de Paulo e Vitório Taviani, enriquecida com os dois prêmios conquistados por Cesar dever morrer, junta a esses outros grandes prêmios anteriores: 1977, Palma de Ouro do Festival de Cannes, com Padre Padrone; o David di Donatello para o melhor filme de 1983, La notte di San Lorenzo; em 1986, o Leão de Ouro pela carreira, do Festival de Veneza; 2007, o Efebo d’oro, com La Masseria delle Allodole.
A nova obra-prima de Paulo e Vitório Taviani, mesmo sendo uma livre adaptação cinematográfica do drama-histórico shakespeareano, dele mantém o mesmo pathos dramático. Inteiramente filmado nos ambientes carcerários de Rebibbia, prisão só para homens situada em Roma, protagonizado por condenados a cumprir penas entre paredes e muros de uma das maiores penitenciárias da Itália, o filme dos irmãos Taviani naturalmente não apresenta figuras femininas. Nele não estão nem Calpúrnia, a esposa de Júlio Cesar, nem Pórsia, a mulher de Bruto. Trata-se de uma obra só de homens, como no fundo igualmente é o drama de Shakespeare, no qual a serena figura de Calpúrnia vem recomendada por Cesar ao amigo Antônio, nem igualmente a doçura de Pórsia, sempre em ânsias pelo amado Bruto.
Na complexa, mas esplendidamente estruturada encenejação de Cesar deve morrer, os personagens são aqueles mesmos e muitos, ainda que igualmente diversos, do drama do imortal poeta inglês: os triúnviros antes da morte de Júlio Cesar, Otávio Cesar, Antônio e Lépido; os senadores Cícero, Públio, Pompílio; os conspiradores aliados de Cesar: Bruto, Cássio, Casca, Trebônio, Ligário, Décio Bruto, Metelo, Cina; Flávio e Marulo, os tribunos; o sofista Artemídoro; vários poetas; os amigos de Bruto e Cássio: Lucílio, Tritínio, Messala, o jovem Cato, Volúmnio; os servidores de Bruto: Varro, Clito, Cláudio, Estrato, Lúcio, Dardânio, com ao lado o servidor de Cássio, Píndaro. A todos estes, se acrescentam numerosos senadores, guardas, atendentes etc, etc. Todos eles representados por condenados de Rebibbia, compondo um grande e sempre movimentado set cinematográfico.
Cesar deve morrer é um filme inquietante e cativante. A mobilidade do drama e representação não permite em qualquer de seus momentos o surgir no expectador a visão de uma cena reduzida num só espaço. Este se faz múltiplo pela dinamicidade da representação, desde a parte de preparação do espisódio quando Júlio Cesar se dirige em particular ao fiel Antônio para confiar-lhe a consorte, pedindo-lhe de estar-lhe muito vizinho, para que ela não se deixe desesperar pelo decurso fatal dos eventos. Bem como tudo se radicaliza depois da vitória contra Pompéu e a partir do momento que surge no discípulo predileto Bruto a fixação da ideia da morte necessária de Cesar. Bruto vive angustiadamente o seu drama interior, assistido sempre por Cássio. A tragédia se consuma e Bruto vem tomado cada vez mais pela desesperação.
A obra-prima vencedora do Festival de Berlim de 2012 tem uma estrutura de produção que recorda as melhores lições do neo-realismo cinematográfico italiano, em particular a partir das lições de Roberto Rosselini, a fundamental admiração de Paulo e Vitório Taviani. A partir dela, os dois diretores realizam um produto de fascinante atração, tudo consequência de uma unidade de direção que levou os atores-prisioneiros, tudo acabado, a saudar os dois irmãos com uma significativa prova de como tinham reconhecido o melhor significado da direção do filme: “Ciao, Paulo Vitório”.
Para todos os partecipantes a prisão se fizera menos degradante. Muitos deles, depois com o retorno à liberdade, se transformara em atores profissionais, bem como deles surgiram inéditos diretores e realizadores cinematográficos, com integração em nova áreas de trabalho.
