Em 10 de Agosto, a fim de patrulhar a região do Jifim, realiza-se a operação “Ligeiros Quadros”. Próximo daquele local é accionada uma mina a/c, resultando a morte do 1.º Cabo António Carrasqueira e 4 milícias. Foi o primeiro momento negro vivido pela nossa Companhia e particularmente pelo 2.º Pelotão, do qual o Carrasqueira fazia parte, militar muito estimado por todos os camaradas.
No total, realizámos 44 operações todas com nomes de código que iam desde “Menina Rabina” até “Cidade Maravilhosa”. Será que o autor destes nomes ao inventá-los se estaria a inspirar na “Spaguetti” em relação à primeira, ou no Jifim, em relação à segunda? Sim, que nestas alturas nem nos lembramos que existe uma cidade maravilhosa, de nome Rio de Janeiro.
A intensa actividade que a nossa Companhia exerceu quer através de operações quer através de patrulhamentos, duma forma equilibrada e procurando cobrir toda a quadrícula que lhe estava distribuída, terá certamente contribuído para que o inimigo não se instalasse na nossa zona.
Em todas as operações realizadas nunca tivemos contacto directo com o inimigo.
1.4 – Incidentes
A 14 de Dezembro são detectadas 6 minas anti-pessoal (a/p) em Padada, enquanto decorria a operação “Diamante Indiano”.
Em Fevereiro de 1971, é detectada e neutralizada uma mina a/c, em Padada e accionada uma mina A/P, sem consequências pessoais, já que foi accionada por uma viatura. Foram, também, encontradas 50 munições de PPSH.
A 18 de Fevereiro, a 300 metros do aquartelamento, foi accionada por uma viatura uma mina a/c da qual resultaram 2 mortos, António Vasconcelos Guimarães e José Augusto Dias de Sousa e 3 feridos.
A 25 de Abril, pelas 17 horas, forma-se violento tornado, que na sua plenitude arranca a cobertura de zinco do pavilhão que servia de Secretaria, Quarto dos Oficiais e Quarto dos Sargentos bem como da Caserna. Debaixo desta pesada estrutura ficam o Furriel Moniz e dois soldados, tendo um destes sofrido uma fractura exposta da perna.
Na noite de 1 de Outubro quando 2 secções da CCS executavam um patrulhamento nas Duas Fontes, foram emboscadas por um grupo inimigo estimado em 50 homens, causando 5 mortos às nossas tropas. Dois destes, pertenciam à nossa Companhia e estavam destacados no Batalhão. Eram o Rogério António Soares e o José Guedes Monteiro.
A 5 de Outubro, quando uma coluna se deslocava para Galomaro, uma das viaturas accionou uma mina a/c, causando 1 morto, Luís Vasco Fernandes e 3 feridos.
Não posso precisar no tempo, mas houve um incidente que muito me marcou pela sua brutalidade. Certa noite vem ter ao quarto dos Oficiais um sentinela dizendo que tinha ouvido rebentar uma armadilha provavelmente accionada por qualquer animal, pois ouvia gemidos. Mal o sol raiou uma secção deslocou-se ao local da deflagração dando então com dois gilas feridos, um ligeiramente, mas o segundo com graves ferimentos numa perna. Perante tal cenário interroguei-me como foi possível ter ficado toda a noite a esvair-se em sangue não tendo sucumbido. Levados para a Enfermaria aí lhes foram prestados os socorros possíveis, sendo de imediato evacuados para Bissau num helicóptero. Embora um dos nossos milícias, que os interrogava em determinado dialecto, me asseverasse que “eram turras de verdade” eu naquele olhar, para além do sofrimento óbvio, vi também uma certa candura, de não comprometimento. Estaria a ser ingénuo? Na realidade, não faria muito sentido utilizar uma zona de conflito como corredor de passagem. Numa entrevista dada por Pedro Pires ao jornalista do Diário de Notícias (12/9/2000, pg.7), aquele referia que a informação que obtinham era “mandada por… ou pelos célebres “djilas”, os comerciantes que iam e vinham”.
Estaríamos mais ou menos a meio da nossa comissão de serviço, quando vejo chegar ao aquartelamento os dois pelotões que horas antes tinham saído para uma operação que deveria durar 2 dias como quase todas as outras. Logo adivinhei que algo de grave se estaria passar. O grupo de combate tinha sido atacado por enxame de abelhas que deixaram alguns dos militares (recordo o estado em que chegou o nosso capitão) em estado lastimoso tendo mesmo dois ou três desmaiado.
1.5 – Flagelações
Sofremos algumas flagelações (9) ao aquartelamento com uma duração muito curta, nunca excedendo os 2 minutos e executadas a longa distância sempre com armas ligeiras (costureirinha) e ao cair da noite, o que permitia aos grupos debandar a coberto da escuridão na expectativa de que não seriam perseguidos.
No dia seguinte à nossa chegada a Dulombi, estávamos a sofrer a primeira flagelação (6 de Maio), mantendo-se uma certa pressão durante os primeiros 6 meses de permanência no território.
Inexplicavelmente, ou talvez não, estivemos praticamente um ano sem ser flagelados (Setembro de 70 a Agosto de 71). Contudo foi durante este período que accionámos 1 mina a/c (18 de Fevereiro).
Se nos primeiros tempos houve um certo receio, por de início desconhecermos qual a amplitude que a flagelação iria ter, com o tempo fomo-nos habituando e praticamente já ninguém corria para os abrigos quando se ouvia a “costureirinha” lá ao longe. Só o “Russo” saltava para o morteiro de longo alcance, garantindo peremptoriamente que alguma das “ameixas” com que tinha presenteado o inimigo, teria alcançado o seu objectivo.
