Afinal parece que existe um país de sucesso na União Europeia, para além da Alemanha, claro. Imaginem, é a Letónia, uma antiga república socialista soviética. É uma das chamadas repúblicas bálticas. Tem cerca de 65.000 quilómetros quadrados e a população não chega a dois milhões e quinhentos mil habitantes. Não é realmente um país grande. Mais de metade do território está coberto por florestas, sobretudo de pinheiros. Durante o domínio da URSS, houve uma grande imigração de russos. Após a adesão à UE (sem aderir à zona euro), em 2004 a Letónia fez grandes reformas económicas (chamam-lhes reformas…), que alteraram grandemente a vida económica e social. Nomeadamente, após negociar em 2009 um plano de resgate com o FMI que envolveu um empréstimo de 7,5 mil milhões de euros, as alterações foram drásticas. O país conheceu a maior recessão da Europa, tendo o PIB sofrido na altura uma quebra de mais de 20 %. Parece que entretanto, em 2011, voltou a crescer, uns 6%. E a Senhora Christine Lagarde tem apontado a Letónia como um exemplo a seguir pelos outros países europeus, nomeadamente os que se encontram em dificuldades. Pelos que estão a levar com a troika, ou em vias de…
Entretanto o jornalista inglês Andy Robinson, no blogue diário-itinerante, ligado ao La Vanguardia, e citado em Portugal pelo esquerda.net, põe os pontos nos ii, a Letónia é o laboratório da troika para os resgates. os salários na Letónia sofreram cortes de 20% e mais, o desemprego quadruplicou, as prestações sociais sofreram igualmente cortes enormes, os serviços de saúde foram afectados seriamente, a emigração aumentou brutalmente. O nível de vida caiu de uma maneira espantosa. Muitas pessoas tiveram de deixar as suas casas, ir viver para barracas, e começar a cultivar hortas para conseguirem sobreviver. A pobreza atingiu 40 % da população. Dez por cento desta terá emigrado. A taxa de natalidade baixou significativamente. Robinson entrevistou um antigo assessor governamental, que lhe confirmou que a Letónia está a ser o laboratório da desvalorização interior, tendo recusado desvalorizar a sua moeda, o lati.
Obviamente que num país pequeno, com população que é menos de um quarto da portuguesa, que esteve bastante tempo em regime de economia planeada, as experiências obtidas dificilmente são susceptíveis de serem utilizadas noutros países. O bom senso torna-o claro. Mas mais do que isso, a inversão súbita nos números do crescimento, de positivos para negativos, não esconde o facto de que estas medidas, a política que lhes está subjacente, foram um fracasso total. E os danos causados vão custar muito a ser reparados. Diário de Bordo recomenda que se acompanhe de perto a Letónia. Pela experiência (má experiência), que se apende sempre alguma coisa. E pela solidariedade com o povo letão, que muito precisa.

