A propósito do falecimento do historiador José Hermano Saraiva, volto a contar a história de como, no “Dicionário da História de Portugal”, cuja edição coordenei, a entrada sobre D. Afonso Henriques, dava o Fundador como nascido no ano de 1109 em Coimbra. As gentes de Guimarães deram paus por pedras: não podia ser, exigiam que a editora publicasse um desmentido. Era uma «gralha»? – perguntavam alguns. Não era uma gralha. O autor da entrada era um credenciado medievalista da escola de José Mattoso, um jovem mas prestigiado professor da Universidade Nova de Lisboa. De Guimarães começaram a chegar à editora cartas, postais, telefonemas e até uma entrevista telefónica em directo tive de dar para a Rádio Fundação. Queriam desmentidos. Cheguei à fala com o autor e ele mostrou-se inamovível – não desmentia nada: se D. Afonso Henriques nasceu em 1109, não pode ter nascido em Guimarães – à data a corte estava em Coimbra. Naquela época, não havia as «barrigas de aluguer» e os filhos nasciam onde as mães estavam.
Por coincidência, o Dr. José Hermano Saraiva foi por esses dias a Guimarães fazer uma palestra à Sociedade Martins Sarmento. Tinha dirigido a “História de Portugal” que fora um grande êxito de vendas e a editora lançara o dicionário na continuação da História, mas já sem a sua direcção. Um grupo de vimaranenses, estudantes na sua maioria, julgando-o co-responsável pelo furto do fundador à Cidade-Berço, fez uma manifestação em frente do hotel onde estava hospedado. Saiu escoltado pela polícia.
A sociedade encheu-se para o ouvir e, depois de ter explicado que não tinha dirigido o dicionário, tranquilizou as belicosa hostes – «D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães! Não há dúvidas a esse respeito!». Uma estrondosa ovação, que se repetiu depois ao longo da palestra. Ele que entrara protegido pela polícia, saiu quase aos ombros dos manifestantes.
No regresso de Guimarães, para tratarmos de um projecto que trazíamos em mente, almoçámos juntos e quando lhe perguntei que elementos tinha para contrapor aos alicerçados argumentos do medievalista, respondeu-me: «Nenhuns! Só os do bom senso». Fiquei desconcertado. E ainda mais com o desenvolvimento: «O que interessa onde é que o D. Afonso I nasceu realmente? E se não nasceu em 1109? Porque se põe em causa o lugar e não a data?» – e completou – «Há coisas em que não se pode mexer. Esta é uma delas. D. Afonso I nasceu em Guimarães. Assunto arrumado!».
O professor José Mattoso, na sua biografia sobre o primeiro rei de Portugal narra este acontecimento, com imprecisões, nomeadamente quanto ao nome da editora detentora dos direitos da obra, mas isso não tem importância. E também não esclarece onde nasceu o filho da bastarda de Afonso VI de Leão. Mais recentemente, surgiu a hipótese de o local do nascimento de Afonso I ser Viseu, hipótese secundada por alguns historiadores. O local de nascimento do primeiro rei permanecerá um mistério.
Durante a preparação da História de Portugal, tive um contacto diário com José Hermano Saraiva. Nem sempre foi pacífica a nossa relação, pois eu tinha prazos a respeitar, limites orçamentais a não transpor, uma estrutura previamente definida a seguir e o Dr. José Hermano Saraiva não gostava de estar prisioneiro desses compromissos. Politicamente nunca tivemos problemas – a posição dele era pública e a minha soube-a. Salazarista, mas (até por imperativo familiar) habituado a conviver com gente de esquerda, tinha uma postura civilizada, respeitadora e aberta. Penso que teve uma atitude mais digna do que a de outros salazaristas que no dia 26 de Abril de 1974 passaram a ser «democratas».
Tornou-se um lugar-comum defini-lo como um comunicador – e era-o. Um excelente comunicador que, descrevia os factos históricos sem a consistência que a ciência histórica exige, preenchia hiatos que os conhecimentos existentes não permitiam explicar – fazia-o segundo um método dedutivo que dava a essas explicações, senão a sustentabilidade desejável, pelo menos alguma probabilidade de estar certas. A história, matéria árdua e enfadonha para uma grande maioria das pessoas, transformou-se nas suas palavras num tema aliciante.
Lamento a morte de José Hermano Saraiva.
