Herbert von Karajan Symphony No 6 (Patética) de Tchaikovsky
Se passarmos em revista as biografias dos grandes mestres da música, dificilmente encontraremos uma personalidade tão desagradável como a de Tchaikovski — o «eterno choramingão», como ele a si próprio se classificava.
O facto, porém, é que toda essa imagem lamurienta de uma figura pejada de complexos e aberrações morais não se reflecte, antes se sublima em golpes de verdadeiro génio na grande música que escreveu.
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O começo da sua carreira não foi propriamente fácil, mas acabou por encontrar um quase incrível apoio financeiro numa tal Madame de Meck que lhe sustentou os vícios — e também o génio, entenda-se — durante catorze anos!
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Mas o que Madame de Meck nunca poderia efectivamente sonhar — ninguém o conseguiria imaginar, há que aceitá-lo’…- é que fosse com base nessa amarotada encomenda, que o compositor iria a pouco e pouco desenvolvendo, ideia após ideia, aquela que viria a ser uma das obras fundamentais da grande música sinfónica de sempre: a genial Sinfonia n.° 6, também chamada «Patética»…
Será caso para se dizer que, neste caso verdadeiramente extraordinário, o rato pariu uma montanha!
Numa carta para um sobrinho, Tchaikovski, escreveu que esta era a sua grande obra e acrescentou que tinha chorado muitas vezes ao compô-la, o que, nas circunstâncias, até se aceita perfeitamente, tratando-se de uma das obras mais emotivas e também mais pungentes de toda a História da Música.
(…) torna-se evidente — e mesmo doloroso — verificar que a estética de Tchaikovski é também essencialmente arrancada ao tumulto de conflitos freudeanos que o dominavam, é uma música que pode por vezes roçar as raias da patologia, mas em termos de uma busca de sublimação que transforma a mesquinhez em grandeza e a cobardia em brado de emoção heróica.
Tudo isto nos é revelado por sons e silêncios quando escutamos uma obra de monumental dimensão e qualidade como é a Sinfonia «Patética», em relação à qual não posso deixar de recomendar o CD da Deutsche Gramophon, com a referência 439 020-2, em que Herbert von Karajan, à frente da Orquestra Filarmónica de Viena, nos propõe uma versão quase insuperável dessa extraordinária partitura.
(extractos de um texto de António Victorino d’Almeida in Músicas da Minha Vida, Dom Quixote)


