2.7 – Certo dia, fumo intenso é detectado a sair do paiol. Perante o eminente rebentamento de todo o arsenal que lá se encontrava armazenado, rapidamente o quartel é abandonado por todos nós para além do arame farpado, não fosse presentear-nos algum estilhaço ou mesmo o sopro que iria gerar. Como passados bons minutos a deflagração não acontecesse, o Alferes Ravasco, perdoem-me mas não encontro neste momento expressão mais apropriada, teve “tomates” e a serenidade necessária para enfrentar a situação. Que acontecera? Um pote de fumos ao cair no chão – que se encontrava alagado – entra em reacção química com a água, gerando o espectáculo que acabo de referir. Chegámos a pensar que seria um acto de sabotagem do inimigo. Pena é que o Almirante Pinheiro de Azevedo, na altura ainda não tivesse pronunciado a célebre frase: “o povo é sereno, isto é só fumaça”. Na realidade vinha mesmo a propósito.
2.8 – Em determinada altura, um indígena pretendia reclamar ou peticionar algo junto do nosso comandante. Como aquele tivesse certa dificuldade em se fazer compreender, alguém sugeriu que se fosse chamar o Carneiro Azevedo para servir de intérprete. Estiveram seguramente cinco minutos numa troca de “jametus”, “tá na mala” e “sapodidis”, arregalando, o “Mamadu”, cada vez mais, os olhos na tentativa de entender o que o Azevedo lhe dizia. Até que passados os tais cinco minutos, o fula chega à brilhante conclusão que aquele arrevesado do Azevedo não seria dialecto fula, mas sim dialecto de Cabeçudos (terra natal do Azevedo).
2.9 – Mal chegados a Dulombi logo se abeirou de mim o Cândido Nunes disponibilizando o seu know-how em matéria de panificação para exercer a função de padeiro da Companhia. Argumentou que em Trancoso era a profissão que exercia. Falei com o nosso capitão sendo o Nunes admitido de imediato, mesmo sem prestar provas, na função que ele dizia conhecer tão bem.
Ao longo da comissão desempenhou a sua tarefa cabalmente e com o benefício de ser dispensado da actividade operacional a qual encerrava alguns riscos e grande esforço físico, como todos sabem.
No final da comissão, já em Bissau, diz-me: “Meu Alferes, de padaria eu só conhecia o local por lá ter entrado nas poucas vezes que a minha mãe me mandava comprar pão”.
Sorri e dei-lhe os parabéns pela sua astúcia.
2.10 – E para acabar. Adivinhem qual era o Alferes que já tinha carta de condução civil e foi tirar a militar só para ter motivo para passar pelo menos mais uma semanita em Bissau? É que aquelas ostras no Pelicano mereciam qualquer estratagema.
Fernando Barata
Baixas da CCaç 2700
António Jacinto da Conceição Carrasqueira – 10/8/70 (mina a/c)
António Guimarães – 18/2/71 (mina a/c)
José Augusto Dias de Sousa – 18/2/71 (mina a/c)
José Guedes Monteiro – 1/10/71 (combate)
Rogério António Soares – 1/10/71 (combate)
Luís Vasco Fernandes – 5/10/71 (mina a/c)
Adriano Francisco – 8/3/72 (doença)
A seguir – Companhia de Cavalaria 3420
