TRABALHO DE CAMPO E OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE EM ANTROPOLOGIA – 5 – por Raúl Iturra

5. A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE COMO EXPERIÊNCIA DE VIDA

Ninguém duvida que observar, participando na estrutura da cultura que se estuda como uma maneira de a apreender para elaborar o documento, seja um método científico, uma vez que permite abstrair os fatores constantes da conduta, e compará-los com outras variáveis. Mas um tal procedimento é também uma forma de construir o objeto de pesquisa por meio da aculturação progressiva e da enculturação permanente do investigador, na aprendizagem do conhecimento do grupo que estuda como se fosse membro do grupo em questão. Onde há outros elementos, como arquivos, monumentos, mapas, cartas ou quaisquer outros registos, estes serão parte da informação. Mas a aprendizagem do que é ser Lozi, Masim, Barasana, Baruya, Kachin, camponês, emigrante, operário, é um fator irrecusável da construção do objeto de estudo. Esta penetração lenta e mesmo ritualizada na outra cultura, é o que ensina a etnografia específica do povo que se estuda, do seu corpo central de conhecimento e ação, bem como da heterogeneidade das práticas com que a vida social é construída e encarada. Nos aspetos práticos, é só no convívio com o quotidiano cultural que se obtêm os elementos que constituem um facto, que separam um fenómeno de outro, e definem a estrutura e o processo específicos daquilo que constitui a vida social dum grupo.

 

 Onde há textos escritos, o estudo do documento, por si só, apenas capta a reiteração das condutas estereotipadas resultantes duma classificação prévia; o estudo por inquérito fornece informações acerca dos meios com que as pessoas movimentam os seus recursos; o estudo a partir duma teoria central ganha na poupança de tempo, mas perde a dimensão da interação dos homens que, num momento específico, agem previsível mente através de processos diferentes — ou que, então, criam sociedade. É em conjunto com estes elementos que a observação participante faz também parte essencial do trabalho de campo. Mas — digamo-lo diretamente — é um método violento. Violento, para quem começa a ser observado; violento, para quem observa. É uma relação onde a suspeita etnocêntrica é normalmente introduzida. E, para acabar com a suspeita, o investigador de campo é ritualmente introduzido, pelo grupo que estuda, dentro desse mesmo grupo.
A chegada do investigador ao local da população que vai estudar é, de certo modo, resultado duma escolha dirigida pelas hipóteses que quer estudar; e, ao mesmo tempo, por circunstâncias que não controla. No período histórico clássico, o facto de haver aborígenes numa terra qualquer era suficiente para que, no caso de haver ligações económicas e políticas, o investigador se deslocasse até lá.

 

Depois, quando a acumulação de dados se torna vultuosa no guia de dados culturais, as populações desconhecidas tornaram-se objeto de curiosidade etnográfica. A seguir, vieram os reestudo de povos tornados conhecidos por cientistas com reputação ou os restudy que um mesmo investigador faz para ver o que se passou entretanto com a “sua” gente. E, finalmente, o objetivo passou a ser estudar locais onde se sabe que existe um tipo de fenómenos que não parecem ainda suficientemente esclarecidos ou suficientemente debatidos. Quando a Europa volta a ser tomada como campo de estudos etnográficos pelos americanos (Cole e Wolf, 1974; Robert Netting, 1979) e ingleses (John Barnes, 1957), e quando os estudos do campesinato são reclassificados como etnográficos (Hoffer e Fell, 1969; Franklin, 1969; Tepicht, 1975; Galeski, 1977; Shanin, 1972; Greenwood, 1976; Tax Freeman, 1970; Lisón Tolosana, 1966; John Davis, 1973; etc.), o tema da escolha de terreno é diferente, já que se pensa que, no seu conjunto, o continente é homogéneo quanto à sua normatividade cultural. A realidade heterogénea que começa a aparecer (Goody, 1982; Hajnel, 1965; Macfarlane, 1980; Silbert, 1965; Iturra, 1986 b; Bouquet, 1982; O’Neill, 1985; Handman, 1983; Ennew, 1977; Hann, 1980; Assier-Andrieu, 1981) faz da escolha um assunto mais delicado. Afinal, a Europa não era toda igual, nem em si própria nem no modo como era concebida nas ideias, no conhecimento, nas histórias e, mesmo, nas ideologias. Já se sabia que a terra dos não europeus não era toda igual; mas que a Europa, mesmo dentro de espaços geográficos nacionais, fosse muito variável já era dificilmente concebível — por se presumir que toda ela seria cristã (primeiro erro), romana (segundo erro) e só capitalista (erro supremo final). Sabia-se que existiam identidades nacionais variadas, mas não se dava conta da existência de práticas culturais heterogéneas. O conhecimento deste facto tomou a escolha mais delicada. O elemento imponderável é saber onde é que o investigador irá encontrar acolhimento, quer quanto à casa onde se instalar, quer quanto a ser ou não aceite. Este é o capítulo da peregrinação do investigador. O grupo que vê chegar um estranho, anteriormente habituado à presença abusiva de brancos ou patrões, desde as guerras de libertação ou da compra das terras, conforme o continente, receia o estranho e oculta os seus recursos. O dizem que dizem que disseram que há por lá, longe, um quarto, é parte do ritual do evitamento; como é também evitamento aparecer alguém a dizer que nesta terra são pouco hospitaleiros, são muito maus. Há quem seja agredido à chegada e tomado por um ladrão, quer de vacas, quer de joias — porque, afinal, de que grupo é este homem ou mulher que às tantas aparece, sem possibilidade de se lhe atribuir um estatuto e um comportamento, dado que não tem ancestrais que lhe sirvam de referência nem parentes que o avalizem? Se é mulher, a investigadora fica sujeita, além do mais, a todos os tabus que sobre as mulheres incidem — nos países islâmicos não pode circular livremente no caso de não ter homem, nos cristãos a sua reputação pública se andar sozinha.

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