“Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”, declarou na passada segunda-feira, Pedro Passos Coelho, durante um jantar do grupo parlamentar do PSD para assinalar o fim desta sessão legislativa, na Assembleia da República. A frase faz lembrar o verso da canção de Herman José «o melhor é Portugal!». E pelo caminho que as coisas estão a tomar poderá o presidente da República começar uma das suas próximas mensagens de Ano Novo, com a invectiva – “Vamos lá cambada!». De facto, a crise económica, está a influenciar o discurso político. E não só aqui. Em Espanha onde, em poucas semanas, se passou da euforia ao pânico, com a bancarrota à vista e a ruptura com o euro com hipótese viável, uma deputada do PP, quando Rajoy anunciava no Congresso o corte de subsídios aos desempregados, soltou a frase que hoje serve de estribilho cantado nas manifestações – que se jodan!
A expressão de Passos Coelho procura captar simpatias. E, claro, não é sincera – se há coisa que o preocupe, as eleições, estão à cabeça. Mas quer afirmar o seu desinteresse – faz o que tem a fazer e se for penalizado por cumprir o dever, enfim um mártir do dever… Já a deputada espanhola Andrea Fabra, ao que parece filha de um conhecido traficante, disse o que lhe ia pela cabeça, o que aliás, vai pela cabeça dos neo-liberais em geral – os desempregados são uma chusma de vadios, querem é subsídios e trabalhar não é com eles. Se na jangada do salve-se quem puder não cabemos todos, deixai afogar os desempregados. Os pensionistas, os doentes, os desempregados, que se…
Mas estas frases não caem em saco roto. O líder parlamentar do PS veio logo declarar que o seu partido se preocupa com as eleições… como se nós não soubessemos que sim. E que desprezar as eleições é desprezar os eleitores, blá, blá, blá. Uma conclusão a tirar – decididamente a direita já não é o que era. Salazar e Franco dariam voltas nos túmulos se pudessem ouvir esta fraseologia chula nas bocas de um primeiro ministro ( um presidente do conselho, a bem dizer) e de uma senhora deputada – por alguma razão os ditadores evitavam que as mulheres entrassem nos parlamentos. São frases equivalentes no teor e no grau plebeístico, mas diferentes na carga filosófica, se assim se pode chamar ao conteúdo de expressões tão rafeiras.Como já aqui temos dito, a política de formato neo-liberal aproxima-se do pior dos modelos televisivos. Os políticos misturam-se com os actores das telenovelas. É a isto que se chama «democracia».

