(continuação)
3. Olhares sobre a União Europeia, olhares sobre a Letónia, sobre Chipre – I
A) Letónia, a cidade da austeridade de Potemkin
Jeffrey Sommers/Michael Hudson:
Estamos aqui. Estamos a trabalhar, a estudar, o fracasso da Letónia em parte porque os leitores gostam dos escritos de Michael Hudson, mas mais importante ainda , porque há uma enorme pressão para recriar a ideia de que a economia é de toda a maneira como uma espécie de sucesso, nada diferente das pretensões a que aspiravam os Chicago Boys face aos pelos seus esforços no Chile.
Por Michael Hudson, um professor associado da Universidade de Wisconsin-Milwaukee e distinto professor da Universidade de Missouri-Kansas City e por Jeffrey Sommers respectivamente, em que ambos têm aconselhado os membros do governo da Letónia sobre as alternativas à austeridade. Eles também têm contribuições no próximo livro a publicar pela editora de Routledge Press: Austerity’s advocates are declaring victory with Latvia’s battle against the European economic crisis and advocating it as the model for Greece & Spain to emulate. Curiosamente, os letões têm estado a declarar a sua vitória através da sua saída do país.
Os “partidários da austeridade” estão a celebrar a Letónia como um país valente que, através de trabalho bastante duro e da disciplina, mostrou o caminho para a saída da crise financeira que assola muitos países. Para estes, os defensores da austeridade, a Letónia representa uma verdadeira demonstração do que representa a moralidade protestante, demonstrando que a austeridade funciona. Na verdade, eles esperam que o exemplo da Letónia será a recauchutagem do pneu que expressa a ideia de Margaret Thatcher de que “não há nenhuma alternativa” para uma campanha de austeridade a desencadear à escala de toda a Europa. Infelizmente, há poucos artigos escritos sobre este tema e sobre os seus impactos na Letónia em que se avaliem os custos económicos e sociais do modelo aqui aplicado… Enquanto o governo da Letónia escolheu a austeridade, a maioria das pessoas não a escolheu. Muitos deles sentindo que aqui não há nenhuma alternativa aceitável à política imposta pelo governo decidiram, por isso mesmo, emigrar.
A Comissão Europeia e o FMI declararam esta vitória com um evento público em Riga no dia 5 de Junho celebrando o modelo aplicado pela Letónia. O director Geral do FMI, Christine Lagarde, proclamou que a Letónia “poderia servir de inspiração para os dirigentes europeus, na luta contra a crise do euro”. O economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, seguido de um mea culpa por ter inicialmente admitindo que o sistema cambial, o peg, associado ao programa de desvalorização interna a ser utilizado na Letónia, não iria funcionar de modo algum com bons resultados, que seria um profundo desastre, vê agora que este sistema como um sucesso.
Para percebermos melhor as declarações de Blanchard deve ter-se presente que a Letónia é um dos poucos países que na sequência da crise de 2008 fez críticas de direita sobre as políticas económicas e sociais. Com efeito, Blanchard e o FMI declararam agora: “as nossas políticas foram demasiado cautelosas na austeridade, viva a austeridade !” Para o FMI isto significa retomar um refrão bastante familiar a ressoar como um voltar atrás para os seus maiores hits dos dias de glória das suas políticas de ajustamento estrutural das décadas dos anos de 1980 e 1990.
Um lugar à mesa do poder de modo rotineiro lisonjeia os especialistas convidados para estes assuntos. Eles relatam obedientemente, mais do que andar a investigar, um pouco do que é dito, do que ouvem. A revista The Economist, parafraseando a caracterização feita por Paul Krugman ao congressista Paul Ryan, incrivelmente “parece-se cada vez mais com a ideia do que uma pessoa estúpida pensa que deve ser uma revista inteligentemente bem feita .” Esta revista apresenta a sua habitual desenvoltura relatando o que são acontecimentos de importância errada. Enquanto isso, grandes nomes (somos relutantes em dizer pesos-pesados) no circuito, como Chrystia Freeland da Reuters, embaraçosamente, como qualquer um que se dê ao trabalho de perguntar ao taxista ou ao emprego do bar do hotel qual a sua ideia sobre a Letónia, ouvem , “o plano aplicado à Letónia funcionou porque o país estava obrigado a isso.”
Isso lembra um exemplo obtido numa das inspecções da Cruz Vermelha ao campo de concentração Theresienstadt em que anunciavam orquestras e boas condições de limpeza, “tudo em ordem aqui!” Naturalmente, a Letónia não é nenhum campo de concentração e os seus habitantes não são fascistas. Na verdade, Riga, a capital, está entre as mais bonitas cidades na Europa e se você tem um pouco de dinheiro, habitável, cidades. Enquanto isso, outros relatam que sentem o país como uma prisão. A realidade é que aqui existem várias realidades dependendo da classe social e dos rendimentos. Para declarar que ” o país como um todo “está “empenhado” a tudo nesta sociedade profundamente dividida pelas classes e pela etnia é, na melhor das hipóteses, fazer um relatório com muita preguiça.
Em suma, a Letónia não é um modelo para a austeridade na Grécia ou em qualquer outro lugar. A impressão que a política neoliberal tem sido um sucesso, é discutível, e a afirmação de que os letões votaram a apoiá-lo, essa, é falsa. O crescimento económico sólido da Letónia desde que a sua economia caiu cerca de 25 por cento em 2008-10 é anunciada como um sucesso. O seu desemprego durante a crise aumentou para mais de 20 por cento ao mesmo tempo que decaia a entrada de capitais estrangeiros (principalmente de empréstimos hipotecários suecos que estavam a dinamizar a sua bolha imobiliária) deixava a Letónia, com profundos défices na conta corrente. Tinha que escolher entre a desvalorização e a manutenção do peg relativamente ao euro. Há problemas inerentes com uma ou outra das escolhas, mas a maneira teológica como as escolhas foram feitas é altamente perturbadora.
O Governo da Letónia escolheu a desvalorização interna, a fim de avançar no sentido da adesão ao euro e na verdade este objectivo é mais popular entre os letões dadas que as pessoas perderam as suas poupanças por várias vezes pelas desvalorizações e crises bancárias havidas desde o colapso da URSS. Para responder aos critérios da zona euro sobre a inflação e os défices cortou-se salários do sector público em cerca de 30 por cento, reduzindo-se assim o consumo para compensar a baixa produtividade do trabalho.
O que permitiu à Letónia sobreviver à crise foram os resgates da EU e do FMI (um “cartão de crédito”, para quem os letões que não utilizaram totalmente a linha de crédito total aberta) – cujos pagamentos começarão em breve a cair. Uma dívida do sector relativamente baixa (9 por cento do produto interno bruto no início da crise) também forneceu alguma protecção contra a especulação sobre os títulos da dívida publica. O problema da Letónia foi principalmente a dívida do sector privado, em especial o montante da dívida hipotecária, que é frequentemente garantida não só pela propriedade, mas também pela responsabilidade pessoal de famílias inteiras como os signatários conjuntos. Os bancos insistiam nesta medida, como eles viram os preços da habitação exorbitantes a serem inflacionados pelos empréstimos bancários imprudentes. Para isso, os suecos, agradeceram à Letónia, por terem assumido uma visão do Síndrome de Estocolmo sobre a crise, tendo assim a Letónia caído sobre a espada de austeridade para proteger os bancos suecos e a economia sueca. Para sermos justos, os letões esperam que esta gratidão lhes seja retribuída quer pela adesão ao euro em 2014 quer ainda que Suécia continue a fornecer a liquidez para a economia da Letónia. Se qualquer um destes objectivos é bom para a Letónia é hoje claramente contestável.
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