Na comunicação social de ontem apareceram notícias de que, na Irlanda do Norte, três dos quatro grupos de republicanos dissidentes do IRA provisório resolveram juntar-se sob a bandeira do IRA para relançar a luta armada contra a presença militar britânica na Irlanda do Norte. Essas organizações seriam o IRA verdadeiro, facção dissidente do IRA provisório, o RAAD, sigla que designa um grupo que enquadra uma milícia de republicanos que declara pretender lutar contra a disseminação da toxicodependência entre as classes trabalhadoras, e uma coligação de pequenos grupos de republicanos de Belfast e das zonas rurais.
Recorde-se que em 1998 foi assinado o acordo de Sexta-feira Santa entre os lealistas, partidários da ligação à coroa britânica, e os republicanos, partidários da separação da Inglaterra e da ligação à república da Irlanda. Suspenderam-se os combates, muito intensificados desde a matança do Bloody Sunday em 1972, e formou-se um governo baseado em eleições, mas manteve-se a ligação à coroa britânica. Para muitos cidadãos a paz significou um alívio às tensões e ao terror que se vivia, e mesmo entre os republicanos defende-se a manutenção dos acordos, mas numa perspectiva evolutiva, mantendo em aberto o cenário de separação da coroa britânica. Por outro lado a crise financeira agravou o peso sentido pelas classes trabalhadoras, sendo de recordar que o governo conservador de David Cameron tem imposto medidas de austeridade que estão a provocar uma retracção na economia bastante superior à prevista. Os católicos, na Irlanda do Norte, pertencem sobretudo às classes mais desfavorecidas, as mais atingidas pela crise.
Na Irlanda do Norte sente-se muito o peso da história, e, apesar de todos os acordos, o conflito religioso. Todos os anos se comemora a Batalha de Boyne, travada em 1690, e em que Guilherme de Orange, protestante, derrotou Jaime II, católico. Esta batalha terá sido decisiva para decidir quem ficava com o trono de Inglaterra. Este ano de 2012, as comemorações, como sempre, motivaram protestos e pequenos grupos de republicanos tentaram interferir com a parada. É neste clima que aparece Derry (oficialmente Londonderry, segundo decreto do rei Jaime I, quando ocupou a cidade, no início do século XVII), a segunda cidade da Irlanda do Norte, e onde ocorreu o Bloody Sunday, como capital da cultura do Reino Unido em 2013. Parece haver intenções oficiais de dar grande relevo a este acontecimento. Possivelmente, estará a ter outro tipo de reflexos entre os republicanos.
Não constitui exagero afirmar que o problema da Irlanda do Norte continua. E fazer notar que enquanto noutras partes do mundo se advogam a formação de novos países e a divisão de outros, por vezes com bastante precipitação, ali continua a arrastar-se há séculos uma situação que, para muita gente, é um resquício de uma conquista violenta, cujos efeitos chegaram ao século XXI. A Irlanda tornou-se independente em 1922. A que título se separou a Irlanda do Norte do resto do país?

