DIÁRIO DE BORDO, 27 de Julho de 2012

 

Na comunicação social de ontem apareceram notícias de que, na Irlanda do Norte, três dos quatro grupos de republicanos dissidentes do IRA provisório resolveram juntar-se sob a bandeira do IRA para relançar a luta armada contra a presença militar britânica na Irlanda do Norte. Essas organizações seriam o IRA verdadeiro, facção dissidente do IRA provisório, o RAAD, sigla que designa um grupo que enquadra uma milícia de republicanos que declara pretender lutar contra a disseminação da toxicodependência entre as classes trabalhadoras, e uma coligação de pequenos grupos de republicanos de Belfast e das zonas rurais.


Recorde-se que em 1998 foi assinado o acordo de Sexta-feira Santa entre os lealistas, partidários da ligação à coroa britânica, e os republicanos, partidários da separação da Inglaterra e da ligação à república da Irlanda. Suspenderam-se os combates, muito intensificados desde a matança do Bloody Sunday em 1972,  e formou-se um governo baseado em eleições, mas manteve-se a ligação à coroa britânica. Para muitos cidadãos a paz significou um alívio às tensões e ao terror que se vivia, e mesmo entre os republicanos defende-se  a manutenção dos acordos, mas numa perspectiva evolutiva, mantendo em aberto o cenário de separação da coroa britânica. Por outro lado a crise financeira agravou o peso sentido pelas classes trabalhadoras, sendo de recordar que o governo conservador de David Cameron tem imposto medidas de austeridade que estão a provocar uma retracção na economia bastante superior à prevista. Os católicos, na Irlanda do Norte, pertencem sobretudo às classes mais desfavorecidas, as mais atingidas pela crise.


Na Irlanda do Norte sente-se muito o peso da história, e, apesar de todos os acordos, o conflito religioso. Todos os anos se comemora a Batalha de Boyne, travada em 1690, e em que Guilherme de Orange, protestante, derrotou Jaime II, católico. Esta batalha terá sido decisiva para decidir quem ficava com o trono de Inglaterra. Este ano de 2012, as comemorações, como sempre, motivaram protestos e pequenos grupos de republicanos tentaram interferir com a parada. É neste clima que aparece Derry (oficialmente Londonderry, segundo decreto do rei Jaime I, quando ocupou a cidade, no início do século XVII), a segunda cidade da Irlanda do Norte, e onde ocorreu o Bloody Sunday, como capital da cultura do Reino Unido em 2013. Parece haver intenções oficiais de dar grande relevo a este acontecimento. Possivelmente, estará a ter outro tipo de reflexos entre os republicanos.


Não constitui exagero afirmar que o problema da Irlanda do Norte continua. E fazer notar que enquanto noutras partes do mundo se advogam a formação de novos países e a divisão de outros, por vezes com bastante precipitação, ali continua a arrastar-se há séculos uma situação que, para muita gente, é um resquício de uma conquista violenta, cujos efeitos chegaram ao século XXI. A Irlanda tornou-se independente em 1922. A que título se separou a Irlanda do Norte do resto do país?

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