Um Café na Internet
Em 1946 eu fazia o 5.º ano no Liceu Pedro Nunes, na Estrela, em Lisboa. O meu colega de carteira era o Jacob Levi, já nascido aqui, pois os seus pais tinham vindo para Portugal em 1930, muito antes de começar a guerra. Por isso tinham escapado do Holocausto.
Numa manhã de sábado a Dra. Hermínia, professora de História, quis fazer uma prova oral com o Jacob. Ele escusou-se:
– Senhora Doutora, vai-me desculpar, mas a minha religião não permite que eu, aos sábados, faça qualquer esforço físico ou mental.
Ela irritou-se:
– Não quero saber da tua religião para nada. Se não respondes à minha prova, dou-te zero!
Levantei-me, em voz grossa fiz comício, perguntei se, acabada a guerra, em Portugal ainda sobreviviam o nazismo e a perseguição aos judeus. Fui expulso da aula e suspenso por três dias. A minha mãe foi ao Liceu tentar botar água na fervura. A Dra. Hermínia foi taxativa:
– Enquanto eu for professora aqui, o seu filho não passa de ano…
Também não me davam equivalência, o meu futuro virado do avesso…
Na tarde do sábado seguinte atravesso o Jardim da Estrela e, num dos relvados, vejo o Jacob Levi a disputar uma partida de futebol. Perco a cabeça, interrompo o jogo, seguro o Jacob pelos colarinhos.
– Com que então o menino, aos sábados, não pode fazer qualquer esforço físico ou mental?
Dou-lhe um enxerto de porrada. Anti-semita eu cá não sou, mas parvo também não quero ser…

