Agitam-se as águas nas hostes neo-liberais.
Por um lado, temos as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa no comentário semanal na TVI, considerando que a frase de Passos Coelho “que se lixem as eleições”, se referiam às eleições autárquicas de Outubro do próximo ano: «Mas ele sabe que é importante não ter uma derrota nas autárquicas, porque acontecem a metade do percurso. Se o Governo sai muito debilitado, a segunda parte da salvação é debilitada. Para salvar o país o Governo não pode sair de rastos». No outro partido do poder, o da chamada Oposição, temos António Costa a reconhecer que não tem perfil para ser guarda-redes do Benfica, mas reconhecendo a sua capacidade para o cargo de secretário-geral do PS.
Marcelo colocou a hipótese de Passos Coelho não se candidatar às próximas legislativas – e acrescentou que na sua leitura da situação, o primeiro-ministro tendo feito tudo para salvar o país, cumprida a missão, se afastará. O que pode ser uma sugestão, uma ideia, que o professor está a dar a Passos Coelho – uma saída airosa. Embora seja ridícula a ideia de que alguém pode acreditar que Passos Coelho salve seja o que for.
Quanto a António Costa, as declarações do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, valem como um aviso a António José Seguro e indiciam que no interior do partido há algum movimento no sentido de erradicar a sua lamentável liderança. Seria impossível encontrar um político menos carismático e tão incapaz de encontrar formas credíveis de se opor a Passos Coelho. Para quem não navegue nas águas turvas do neo-liberalismo, a comparação entre os dois líderes é mesmo, em termos de imagem, favorável ao homem do PSD, pouco inteligente, mas mais assertivo. António José Seguro é a personificação da incapacidade – a inteligência de uma amiba e a assertividade de um molusco.
António Costa é um homem do aparelho do partido. Munido de uma prudência calculista, talvez seja capaz de fazer melhor do que Seguro, pois pior é quase impossível. É mais credível do que Seguro que é uma sombra de um corpo inexistente. Mas, tal como Seguro, não é um socialista. É como os outros um político de carreira. Com Costa, nada de essencial mudará. Aliás, temos verificado que à liderança do PS nunca chegaram socialistas. Jorge Sampaio desiludiu e todos os outros – Constâncio, Guterres, Ferro Rodrigues, Sócrates – nem sequer chegaram a iludir.
As declarações de Costa parecem significar que o partido no seu conjunto se apercebeu da ineficácia da actual direcção. O Partido Socialista talvez ganhe as próximas eleições, pois haverá votação contra o PSD, contra os cortes dos subsídios, contra o desemprego, contra a destruição do Serviço Nacional de Saúde, contra a delapidação do património, contra os lapsos, contra o Relvas… Com António José Seguro, com António Costa ou com qualquer outro, o PS deverá ganhar. No entanto, nem o socialismo, nem o povo português ganharão seja o que for.
