Ética (uma visão pessoal) – Adão Cruz

 

 

 

 

(Por várias razões, nomeadamente por ser um período de férias e por ter um familiar doente, sou obrigado a suspender a rubrica ”estuário” durante o mês de Agosto. A todos, os meus cumprimentos)

 

 

 

Adão Cruz  Ética (uma visão pessoal)

 

 

 

(Adão Cruz)  

 

 

 

   Existe uma ética objectiva, inscrita no nosso código genético, válida só por si, existe uma ética baseada na história da vida e das sociedades humanas ou existem ambas, fundidas e inseparáveis?

 

Para mim é muito difícil dizer o que é a Ética, até porque não sou, propriamente, uma pessoa sabedora nestas áreas. No entanto, a vida sempre me deu a entender que a Ética é a mais bela construção do ser humano, assente em quatro pilares fundamentais.

 

Tudo o que está escrito sobre ética deve encher um contentor. Portanto, vamos deixar-nos de complicadas iguarias, satisfazendo-nos com a nossa comida mais caseira. A Ética é, penso eu, a vivência da verdade, o lugar certo do Homem dentro de si mesmo, o fio-de-prumo do Homem no interior da sua cumplicidade. A ética compreende a disposição do Homem na vida, interfere com o seu carácter, os seus costumes, a sua moral, ao fim e ao cabo com o seu modo e a sua forma de vida. O Homem faz-se por si e pelos outros, sendo que a ética é a autenticidade deste fazer-se.

 

O primeiro pilar da verdadeira morada do Homem seria constituído pelo pensamento e pela sua inseparável companheira, a razão. A ética é uma consequência da razão. Podemos dizer que as plataformas que permitem a elaboração de um pensamento ético são a liberdade e a responsabilidade. A capacidade do Homem de se auto-determinar e assumir a direcção da sua vida determina-o como homem livre e, por conseguinte, a caminho do sujeito ético. E um sujeito ético é, fundamentalmente, um sujeito que procura a verdade. O referente da liberdade humana é a procura da verdade, porque a verdade orienta a liberdade e encaminha-a para a sua plenitude. O pensamento é o suporte mais poderoso e a mais forte armadura do Homem, a mágica força da sua criatividade. Sem pensamento e sem razão a mente humana não passa de um céu brumoso, sem ponta de sol. Por isso o pensamento e a razão têm tantos inimigos!

 

O segundo princípio ou pilar fundamental decorre do primeiro e chama-se cultura. Não sei verdadeiramente o que é a cultura. E cada vez sei menos, neste pequeno país e neste pequeno planeta feito de inúmeros serventuários medíocres, de arrogante provincianismo, incriativos plagiadores de todos os lugares-comuns inseridos nas políticas de retrocesso. Sei, no entanto, que não é a cultura-espectáculo, a cultura enlatada de políticos e cabotinos, a massificação e homogeneização que só gera vícios consumistas, impedindo o homem de pensar, reflectir e encontrar, mas a cultura do dia-a-dia, a cultura estruturante da pessoa, a cultura do percurso, a cultura da ética dialógica que está na base da racionalidade critica orientada para a procura do significado da realidade humana.

 

O terceiro princípio seria o respeito pelos outros. Todavia, o respeito pelos outros nunca existirá se não houver respeito por nós próprios. O respeito pelos outros é o espelho do respeito por nós próprios.

 

O quarto pilar desta edificação ética do Homem seria a justiça e a solidariedade. O primeiro passo da solidariedade estaria no entender da justiça social e no seu consciente reconhecimento como prioridade das prioridades. O segundo passo seria a consciência de que viver dos outros implica sempre viver com os outros e para os outros. Precisamente o contrário daqueles que aceitam o individualismo e o hedonismo como fatal decorrência da onda globalizante e o desculpabilizam e até desnegativizam. Penso que o Homem é um ser para o encontro, encontro consigo mesmo, com os outros, com o mundo e com o transcendente, a quem abre a interioridade da sua consciência e a vital necessidade de procura da verdade.

 

 

3 Comments

  1. AdãoPara ajudar à discussão, direi que estou a ter um comportamento ético se, ao escolher entre a ou b, eu não estiver a ter a preocupação de a minha escolha ter sido feita pela opção que me beneficia, ou seja, quando faço uma escolha faço-a sem saber se dela tiro ou não benefício.Também Kant nos ensina (ensinou) que devemos agir segundo as máximas que eu possa querer que, ao mesmo tempo, se tornem leis universais. Se assim proceder, também estarei a ter um comportamento ético.Estaremos, eu e os que isto leiam, de acordo? Concordem que, pelo menos, estou a ser prático.Um abraçoAntónio

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