“A Vida dos Sons”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (V)
A edição do programa “A Vida dos Sons” relativa ao ano de 1972 teve, também, o triste condão de pecar por defeito em matéria cultural.
Tivemos:
1. Notícia do surgimento de um novo jornal, o semanário “Expresso”, que começará a sair para as bancas a 6 de Janeiro de 1973; transmissão de um excerto da entrevista concedida pelo seu fundador e proprietário, Francisco Pinto Balsemão, a Maria Leonor;
2. Transmissão, em jeito de ilustração sonora do ponto anterior, e sem qualquer outra referência, de um excerto do tema “Maré Alta”, de Sérgio Godinho;
3. Transmissão de trechos do tema “Sunday Bloody Sunday” (1983), dos U2 a pontuar o texto no qual se tratou do massacre de catorze manifestantes irlandeses desarmados, por tropas paraquedistas britânicas, em Derry, no dia 30 de Janeiro de 1972, que ficará conhecido como Domingo Sangrento;
4. Transmissão de um excerto do tema “The End”, dos Doors, antecedendo a menção aos bombardeamentos norte-americanos sobre as cidades de Hanói e Haiphong, no Vietname do Norte;
5. Transmissão, sem identificação, do tema “Watergate Bugs”, de e por Les Waldroop após a abordagem das operações de espionagem mandadas fazer por Richard Nixon na sede do Partido Democrático, conhecido como edifício Watergate, e que depois de publicamente denunciadas pelo jornal “The Washington Post” levarão à renúncia de Nixon da presidência dos E.U.A., a 8 de Agosto de 1974;
6. Transmissão do tema “Lágrima de Preta”, por Manuel Freire, depois de referida a aprovação pela Assembleia-Geral da ONU (com os votos contra, além de Portugal, dos Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e África do Sul) de uma resolução incentivando os estados membros a prestarem auxílio aos movimentos de libertação das colónias portuguesas em África;
7. Transmissão de um excerto da entrevista concedida pelo escritor Jorge de Sena ao jornalista e poeta Leite de Vasconcelos, da Rádio Moçambique, que era para ser emitida no programa “A Noite e o Ouvinte”, mas que foi proibida de ir para o ar;
8. Referência ao processo movido pelo regime de Marcello Caetano às autoras do livro “Novas Cartas Portuguesas” (1972), Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, por alegadamente ser«insanavelmente pornográfico e atentatório da moral
pública» (http://www.novascartasnovas.com/historia.html); transmissão de um excerto da entrevista concedida por Maria Teresa Horta a João Almeida, em 2007, para o programa “Quinta Essência” (Antena 2); ficou a faltar o depoimento, caso exista, de Natália Correia, na qualidade de directora literária da editora Estúdios Cor, que tendo sido pressionada para censurar o texto insistiu em publicá-lo na íntegra [programa “Ler Mais Ler Melhor”, 2011; faltou também a leitura de uma passagem do livro; é de todo o interesse que sejam citados os títulos e respectivos autores, mas mais importante ainda é os ouvintes terem a noção dos conteúdos, quanto mais não seja para lhes aguçar o apetite para a leitura integral (http://issuu.com/novas_cartas_novas/docs/novas_cartas_portuguesas); não quero acreditar que as Sras. Ana Aranha e Iolanda Ferreira, quais zeladoras neo-salazaristas da moral pública, achem o texto impróprio para ser ouvido pelo público que em 2012 constitui o auditório da Antena 1 [um excerto lido em voz alta
9. Referência à publicação em França do livro de Mário Soares “Le Portugal Bailloné” (“Portugal Amordaçado”), sob chancela da editora Calmann-Lévy; ficaram a faltar as palavras do autor e a menção do nome de Alain Oulman, pois foi graças a ele que a obra veio primeiramente a lume em terras gaulesas (http://www.fmsoares.pt/mario_soares/textos_ms/005/8.pdf);
10. Referência ao falecimento da cantora norte-americana Mahalia Jackson e subsequente passagem de um depoimento da rainha dos espirituais negros; transmissão, a fechar, de um breve trecho do tema “Amazing Grace”
(Continua às 17 horas)
