3. Olhares sobre a União Europeia, olhares sobre a Letónia, sobre Chipre – V
(conclusão)
JUNE 08, 2012
O que eu aprendi na Letónia
Dani Rodrik
Passei uns poucos dias na Letónia, na semana passada. Os meus encontros estiveram centrados sobre a política industrial, questão importante na Letónia – o que é bastante interessante para um país que é visto frequentemente como um viveiro de economia conservadora. Mas o tempo em que aí estive também me deu uma oportunidade para reflectir sobre a resposta muito discutida que o país tem dado à crise económica.
Resumidamente, a Letónia rejeitou muitos conselhos externos e não desvalorizou a sua moeda , apesar de um enorme défice da conta corrente que ultrapassava os 20% do PIB em 2007. O lat havia sido indexado ao euro em antecipação à entrada da zona euro e o governo recusou-se a fazer fosse o que fosse que pudesse comprometer esse objectivo. Ao FMI disseram-lhes que podiam ir para casa se continuassem a insistir na desvalorização.
No final, o país pôs em prática uma contracção orçamental radical e tão radical que a conta corrente passou de défice a excedente externo. O choque produziu uma perda de produção de quase 20% do PIB num só ano e trouxe consigo um aumento do desemprego de 6% em 2007 para 18,4% em 2011. Neste ano o pior parecia ter já acabado e que a economia iria crescer a um ritmo saudável de 5,5%, uma das taxas mais elevadas da Europa.
Se ouvirmos os defensores da austeridade orçamental, como o governador do Banco Central Ilmars Rimševičs, a Letónia é um enorme sucesso – um exemplo para a Grécia, para a Espanha e para outros países sobre como devem enfrentar então a actual crise. No lado positivo, o crescimento voltou mais rapidamente do que a maioria dos economistas esperava, as exportações aumentaram, o desemprego desceu, e o sistema político parece mais estável do que tem sido desde há algum tempo. Apesar das queixas sobre o quadro jurídico e na sua muito pobre aplicação, os investidores estrangeiros estão razoavelmente satisfeitos. A entrada na zona euro continua a ter como data prevista o ano de 2014.
Do lado negativo, o colapso do PIB foi o mais profundo que qualquer país já teve durante a actual crise. Apesar de uma recuperação que parece em ritmo acelerado, o país ainda está longe de recuperar para os níveis de produção anteriores à crise (ver gráfico). A Islândia, que foi atingido com uma crise financeira ainda maior, impôs controles aos movimentos de capital, desvalorizou sua moeda, evitou uma contracção económica tão acentuada como a que se verificou na Letónia. Quando eu coloquei este facto a Rimševičs este interrompeu-me e argumentou que a Islândia beneficiou de condições especiais de exportação.
Mesmo que o desequilíbrio externo da Letónia tenha sido eliminado, não está claro que houve uma melhoria considerável na competitividade. A tão vangloriada desvalorização interna tem sido pequena. Os cortes salariais têm sido verificados principalmente no sector público, onde eles realmente não ajudam a melhorar a competitividade das exportações. Os salários do sector privado têm estado surpreendentemente resistentes. Como se mostra com o quadro seguinte, o custo unitário do trabalho medido com base na taxa de câmbio real tem-se reduzido (depreciado) mas apenas de forma moderada, depois de um aumento enorme entre 2004-2008. Consequentemente, não é de todo claro se a Letónia recuperou suficientemente competitividade para sustentar o crescimento sem correr o risco de ter consideráveis défices externos mais uma vez.
Para um forasteiro o que é o aspecto mais marcante da experiência da Letónia é a relativa ausência de conflitos políticos e de lutas sociais durante o que deve ter sido uma crise económica catastrófica. Quando eu apresentei as notícias dos jornais que mencionaram grandes e os maiores protestos de rua na Letónia desde a ocupação russa no auge da crise, os meus anfitriões asseguraram-me que estes eram na verdade menores. Apenas algumas centenas de pessoas, a actuarem para as câmaras, foi o que eles me disseram. Na Grécia, não foi assim.
Porquê? Não porque o sistema político seja particularmente funcional (há de facto muitos pequenos partidos) ou porque não haja clivagens étnicas (a divisão entre letões e russos continua a ser profunda). Disseram-me que os letões são pessoas estóicas, que guardam seus problemas para si mesmos.
A principal lição que eu levo de tudo isto é a de que é necessário evitar generalizações apressadas que não respeitem as peculiaridades do país. Os missionários da política de austeridade orçamental, estão certamente fora da realidade quando dizem que a experiência da Letónia é uma decisiva prova de que os keynesianos e os defensores da desvalorização da sua moeda estão errados. É muito cedo para julgar a experiência da Letónia como sendo um sucesso. Mas também é muito cedo para dizer a Letónia tem sido um fracasso. O crescimento pode continuar, caso em que o país poderá ficar cada vez melhor e bem melhor.
Contudo, uma coisa que podemos dizer com toda a certeza, é a de que o tipo de austeridade orçamental drástica que se mostrou viável na Letónia não seria possível em muitos outros países. Rimševičs e outros consideram que a política da Letónia foi um sucesso porque pegaram no touro pelos cornos, como se costuma dizer em bom português, e puseram em prática as medidas orçamentais com velocidade e determinação. Talvez tenha sido assim. Mas também é verdade que estes fogem em subestimar os elevados custos das suas medidas. Os decisores políticos da Letónia esperavam uma queda de 10% do PIB em 2009, em vez disso eles tiveram uma quebra do PIB quase duas vezes maior. O verdadeiro segredo do seu sucesso é que eles tiveram sorte em não ter de enfrentar uma revolução.


