Joan Maragall e o iberismo. O “Himne Ibèric” (1906)

Quatre Barres

 

 

Joan Maragall e o iberismo. O “Himne Ibèric” (1906)

 

por Josep A. Vidal

 

 

O professor de literatura catalã na Universidade Autónoma de Barcelona, Víctor Martínez-Gil, num artigo intitulado “Portugal i el Minotaure en una possible ‘imagologia?catalana” (http://iberistas.com/foro/l-iberisme-en-la-cultura-catalana-t2316.html) faz um resumo da história do iberismo na Catalunha, fazendo incidir atenção especial nas relações seculares entre a Catalunha e Portugal. “As relações entre a Catalunha e Portugal – diz Martínez-Gil – são o resultado da existência de um quadro hispânico comum que tem determinado tanto os seus contactos efectivos quanto o papel que cada sociedade desempenha no imaginário da outra. Mais, ao contrario de Castela, a Catalunha e Portugal têm tradicionalmente entendido a península como um espaço cultural e político em que convivem coroas, reinos, nações e culturas diferentes. O sentimento de ‘conexão espiritual hispânica’, como o considera Ferran Soldevila, foi significativo para ambos os países, mais não foi motivo de dissolução, nem de exigência absoluta de vínculos, nem de travão para os diferentes desenvolvimentos culturais, políticos, territoriais e económicos de cada povo.

 

Esta revisão, cuja origem é iniciada a partir da Idade Média, leva-o finalmente, a levantar uma questão que abre novos horizontes ao debate histórico do iberismo, e, en particular, da relação entre a Catalunha e Portugal: “Como em seu tempo a Ibéria, também a Europa é um projecto de nação de nações que se formula a partir dos nacionalismos particulares que querem impor os próprios interesses. O iberismo catalanista não nos oferece, portanto, apenas um círculo específico de relações significativas, mas um exemplo de como moldar idealmente, e, portanto, de alguma forma politicamente, uma realidade que não é já a Ibéria, mas Europa, as suas próprias necessidades.”

 

A história de Portugal e da Catalunha, ainda seguir caminhos e destinos diferentes, tem paralelos e conexões em que o professor Martínez-Gil vê vínculos profundos e interdependentes: “Afinal, a Catalunha sempre aplicou a Portugal a consideração que aplicou a si mesma: admira-o como reino hispânico independente, coisa que ela aspira ser, ou quererá vê-lo transformado em província castelhana ao ver-se a si mesma como tal; considerá-lo-á como nação peninsular no tempo do próprio nacionalismo. Portugal é […] a outra Catalunha, a outra cultura peninsular a ser medida e relacionada com a castelhana como mede e relaciona a sua própria cultura.

 

Após rejeitar o conceito de federalismo iberista espanhol do século XIX, porque “se baseava na descentralização territorial, mais não punha em causa a ideia da nação cultural espanhola , diz que “só aparecerá um iberismo propriamente catalão quando o catalanismo for capaz de voltar a pensar na Catalunha como uma realidade autónoma em relação à Espanha. […] O catalanismo passou do regionalismo ao nacionalismo quando foi capaz de distinguir entre o Estado (Espanha) e a nação (Catalunha). Esta distinção conduziu a uma nova visão do iberismo, porque a união estatal não significava automaticamente a subordinação cultural e nacional”.

 

Assim, de acordo com a declaração do professor Martínez-Gil, ultrapassado o iberismo regionalista, passa-se gradualmente para um iberismo nacionalista – que Enric Prat de la Riba baseou numa divisão nacional da península en três grandes unidades tradicionais: Portugal, Castela e Catalunha, e que oferecia um quadro propício aos interesses comerciais e estatistas da burguesia – e, ultrapassando esta visão pragmática, um iberismo culturalista que o poeta Joan Maragall sintetizava em 1905 com estas palavras: “Hoje, na península hispânica, deixando as fronteiras políticas, são três as famílias nacionais bem definidas linguisticamente: a galaico-portuguesa, a castelhana e a catalã, que comprende também as ilhas Baleares. São a Espanha atlântica, a Espanha central e a Espanha Mediterrânica”.

 

Com estas bases, o iberismo de Joan Maragall, que define “a nova Ibéria como uma nação de nações, com uma alma própria e trina“, resume-se nas palavras que o poeta escreve a Miguel de Unamuno, em 1911 na carta que reproduzimos nesta coluna num artigo anterior: “E esta alma ibérica, que ainda somos tão poucos a sentir, tem de ser encontrada dentro: dentro da sua Castela os castelhanos, dentro do seu Portugal, os portugueses, dentro da nosa Catalunha, os catalães, até se chegar à raiz comum.

 

Este é o contexto em que se inscreve o “Himne Ibèric” (1906) de Joan Maragall reproduzido abaixo. Como diz no seu trabalho o professor Martínez-Gil, no esforço de definir o povo português que a questão ibérica alimenta na Catalunha, “a imagem fixada será a transmitida pelo Romantismo – a de um povo português saudosista e idealista “.

 

Antes de concluir este trabalho, o autor interroga-se: “Juntamente com os problemas específicos de definição nacional, quem duvida que a construção europeia há-de ganhar aos fantasmas que a tornam difícil, baseando-se na assumpção crítica dos laços culturais e políticos estabelecidos historicamente entre as suas nações? Os laços históricos e culturais, não devem ajudar a regularizar os económicos e os políticos? “ E termina assim: “Portugal, indissoluvelmente ligado, do nosso ponto de vista, à Ibéria e a Espanha, é, juntamente com outros países, como França, Occitânia, Itália ou Noruega, uma das peças da nossa imagologia política e cultural. Cada um deles, com a sua diferente importância e especificidade, deve desempenhar um papel na nossa definição nacional e na nossa integração na Europa, dois factores agora inseparáveis não só para nós.

 

 

(anteriormente publicado no Estrolabio)

 

 


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