Pentacórdio, sexta-feira, dia 3 de Agosto de 2012. Por Rui de Oliveira.

      Na Culturgest duas exposições onde o material base é a película fotográfica foram inauguradas a 16 de Junho permanecendo abertas até 2 de Setembro.

 

 

 

 

 

     “As Sombras de Lisboa / The Shadows of Lisbon é obra de Jef Geys (Leopoldsburg, Bélgica, 1934), um artista de referência absoluta no seu país natal e figura de culto no mundo da arte internacional. No entanto, e apesar de ter já participado na Bienal de São Paulo em 1991, na Documenta de Kassel em 2002 e na Bienal de Veneza em 2009, Jef Geys continua a ser um artista ainda pouco conhecido, facto a que não serão alheios nem a natureza idiossincrática do seu trabalho, nem o modo como, desde o final da década de 1950, ele construiu uma posição de radical independência e liberdade em relação às forças do mundo da arte e às regras do jogo instituídas nesse contexto.


 

 

    Em 1998, Jef Geys publicou um volumoso livro de quinhentas páginas em que compilou todas as suas fotografias a preto e branco (não estamos a falar de “fotografia artística”) até essa altura, distribuídas por centenas de provas de contacto. Curiosamente, as duas últimas provas de contacto correspondem a fotografias tiradas pelo artista em Lisboa. O trabalho agora realizado toma como material de base as trinta e seis fotografias reunidas na última prova de contacto.” Trata-se de fotografias do quotidiano, quadros que contrastam o fantasma e a claridade” − na terminologia do próprio Geys – “registos da passagem do tempo e uma intangível visão que realça o classicismo da extrema inexorabilidade poética que Lisboa celebra em tantos dos seus mais voláteis detalhes urbanos”.    

 

   A outra aborda os “Filmes” de António Palolo, cineasta falecido em 2000 que, entre o final da década de 1960 e 1978, realizou um conjunto extraordinário de filmes e experiências em filme. Os primeiros, ainda em 8 mm, são animações a preto e branco, construídas a partir de procedimentos de recorte e colagem, que associam, com humor, imagens retiradas de revistas e elementos geométricos. Entre os diversos filmes em Super 8 mm realizados a partir do início da década de 1970, incluem-se “Drawings/Lines” (1971), sequência rítmica de desenhos em contínuo movimento, riscados diretamente na película; “Lights” (1972-1976), sequência de imagens abstractas criadas a partir de experiências de manipulação da luz; ou“OM” (1977-1978), filme em que o pensamento abstracto se transmuta no concreto da matéria, figurando a origem das coisas e o universo incomensurável.


   Com imagens primordiais, que invocam a fundação da vida e a origem das coisas, Palolo reconfigura as suas experiências químicas para uma incursão fenomenológica sobre o mundo, ao jeito de Merleau-Ponty: “tudo o que vejo está, por princípio, ao meu alcance, pelo menos ao alcance do meu olhar”.


   Esta exposição é uma oportunidade imperdível para finalmente conhecer um conjunto de filmes que, salvo raras excepções, e apesar da sua enorme importância, não apenas no contexto da obra de António Palolo, mas também na história da arte portuguesa, permaneceram demasiado tempo escondidos. 


                  

 


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