10 CANÇÕES DE LUÍS DE CAMÕES – VI – por Álvaro José Ferreira

CANÇÃO VI

Organização de Álvaro José Ferreira

Ilustração: pormenor de um quadro de Dorindo Carvalho

CANÇÃO VI

Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, apresentação de Aníbal Pinto de Castro, Coimbra: Livraria Almedina, 1994)

Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995) [>> YouTube]

Com força desusada

aquenta o fogo eterno

ũa ilha lá nas partes do Oriente,

de estranhos habitada,

aonde o duro Inverno

os campos reverdece alegremente.

A lusitana gente,

por armas sanguinosas,

tem dela o senhorio.

Cercada está dum rio

de marítimas águas saudosas;

das ervas que aqui nascem,

os gados juntamente e os olhos pascem.

 

Aqui minha ventura

quis que ũa grã parte

da vida, que não tinha, se passasse,

para que a sepultura

nas mãos do fero Marte

de sangue e de lembranças matizasse.

Se Amor determinasse

que, a troco desta vida,

de mim qualquer memória

ficasse, como história

que de uns fermosos olhos fosse lida,

a vida e alegria

por tão doce memória trocaria.

 

Mas este fingimento,

por minha dura sorte,

com falsas esperanças me convida.

Não cuide o pensamento

que pode achar na morte

o que não pôde achar tão longa vida.

Está já tão perdida

a minha confiança

que, de desesperado

em ver meu triste estado,

também da morte perco a esperança.

Mas oh! que, se algum dia

desesperar pudesse, viveria.

 

De quanto tenho visto

já agora não me espanto,

que até desesperar se me defende.

Outrem foi causa disto,

que eu nunca pude tanto

que causasse este fogo que me encende.

Se cuidam que me ofende

temor de esquecimento,

oxalá meu perigo

me fora tão amigo

que algum temor deixara ao pensamento!

Quem viu tamanho enleio

que houvesse aí esperança sem receio?

 

Quem tem que perder possa

se pode recear.

Mas triste quem não pode já perder!

Senhora, a culpa é vossa,

que para me matar

bastara ũa hora só de vos não ver.

Pusestes-me em poder

de falsas esperanças;

e, do que mais me espanto:

que nunca vali tanto

que vivesse também com esquivanças.

Valia tão pequena

não pode merecer tão doce pena.

 

Houve-se Amor comigo

tão brando e pouco irado,

quanto agora em meus males se conhece;

que não há mor castigo

para quem tem errado

que negar-lhe o castigo que merece.

E bem como acontece

que, assi como ao doente

da cura despedido,

o médico sabido

tudo quanto deseja lhe consente.

assi me consentia

esperança, desejo e ousadia.

 

E agora venho a dar

conta do bem passado

a esta triste vida e longa ausência.

Quem pode imaginar

que pode haver pecado

que mereça tão grave penitência?

Olhai que é consciência,

por tão pequeno erro,

Senhora, tanta pena!

Não vedes que é onzena?

Mas se tão longo e mísero desterro

vos dá contentamento,

nunca se acabe nele meu tormento.

 

Rio fermoso e claro,

e vós, ó arvoredos,

que os justos vencedores coroais,

e ao cultor avaro,

continuamente ledos,

dum tronco só diversos frutos dais:

assi nunca sintais

do tempo injúria algũa;

que em vós achem abrigo

as mágoas que aqui digo,

enquanto der o Sol virtude à Lua;

por que de gente em gente

saibam que já não mata a vida ausente.

 

Canção, neste desterro viverás,

voz nua e descoberta,

até que o tempo em Eco te converta.

* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel

Pós-produzido nos Estúdios Grande Som, Lisboa

URL: http://www.teatro-cornucopia.pt/htmls/conteudos/EEuEZkluuuTLFwLByT.shtml

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Miguel_Cintra

http://www.infopedia.pt/$luis-miguel-cintra

Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, apresentação de Aníbal Pinto de Castro, Coimbra: Livraria Almedina, 1994)

Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995) [>> YouTube]

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