POESIA AO AMANHECER (2) – por Manuel Simões

Sophia de Mello Breyner Andresen – Portugal

(1919 – 2004)

ESTA GENTE

 

            Esta gente cujo rosto

            Às vezes luminoso

            E outras vezes tosco

 

            Ora me lembra escravos

            Ora me lembra reis

 

            Faz renascer meu gosto

            De luta e de combate

            Contra o abutre e a cobra

            O porco e o milhafre

 

            Pois a gente que tem

            O rosto desenhado

            Por paciência e fome

            É a gente em quem

            Um país ocupado

            Escreve o seu nome

 

            E em frente desta gente

            Ignorada e pisada

            Como a pedra do chão

            E mais do que a pedra

            Humilhada e calcada

 

            Meu canto se renova

            E recomeço a busca

            Dum país liberto

            Duma vida limpa

            E dum tempo justo

            (de “Geografia”)

Uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Da sua monumental obra poética, feita de depuração e de grande luminosidade, sem nunca perder de vista a condição humana, destacam-se talvez “Poesia” (1945), “O Dia do Mar” (1947), “No Tempo Dividido” (1954), “Livro Sexto” (1962), “Geografia” (1967), “Dual” (1972), “Ilhas” (1989) e “Signo” (1994). Em 1999 foi-lhe outorgado o Prémio Camões.

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