DOIS PAÍSES – UMA LÍNGUA? – por Magalhães dos Santos

Por causa de um trabalho que tenho entre mãos – muito grandes as tenho, tantos são os trabalhos que faço ao mesmo tempo… já para não falar nos que ficam para as calendas gregas… –, tenho tido a ocasião de lidar com muitas frases brasileiras (humorísticas). Em Português, é claro! Mas em Português do Brasil!

A fazer-me lembrar a frase de Bernard Shaw: “a Inglaterra e os Estados Unidos são dois países separados pela mesma língua“.

Vou-lhes transcrever algumas dessas frases, com a esperança de que, se não gostarem do meu artigo ou se não concordarem com o que eu digo, sempre achem alguma graça às frases que lhes trago.

*  “Qual é o fim da picada?  Quando o mosquito vai embora.”

Julgo que este “fim da picada” já entrou no uso de muitos Portugueses. Mas ainda é, parece-me, um brasileirismo.

O que o canibal vegetariano come?  R: A planta do pé e a batata da perna.

*  Por que a vaca foi para o espaço? R: Para se encontrar com o vácuo.

Eu – que não sou modelo nem exemplo, em nada, para ninguém – escreveria e diria: “O que é que…”, “Por  que é que…”            O Houaiss diz que BATATA é, em uso informal, bíceps volumoso. Neste caso, tratando-se da perna, admito que designe os GÉMEOS DA PERNA, a BARRIGA DA PERNA, a BUCHA DA PERNA.

*  – Pergunta: “Posso “bocejar” quantas vezes ao dia?”.     Resposta: “Se estiver com sono, fique a vontade”.

Aqui, o problema está na grafia, motivada pela abertura das vogais que se regista no Português da banda di lá. Abertura essa que torna mais fácil aprender o Português do Bràsiu do que o nossinho, cheio de vogais mudas e fechadas. A grafia correta será à vontade. Esta confusão leva a que frequentemente nos apareça a forma do verbo HAVER – HÁ – escrita A, sem  acento e sem H!

*   “O Brasil está em nossas mãos… E não adianta lavar!!”

No Português do Brasil, os adjetivos possessivos poucas vezes são precedidos dos artigos definidos. Nós diríamos “nas nossas mãos”.

* Cara, preciso de sua ajuda! O que foi? Tem duas mulheres brigando por minha causa. Tá, e daí? É que a feia ganhando!

* “Tem gente que até depois de perder os braços, continua falando pelos cotovelos.”

Muito caraterístico do falar brasileiro, este emprego do verbo TER em circunstâncias em que nós, por cá (todos bem!), usamos o verbo HAVER. Aquele TÁ também é muito di lá. Verdadeiramente brasuca é aquele CARA, onde nós diríamos, AMIGO, MIGO, Ó PÁ.

*  Alguns Homens São… COMO CAFÉ… São ricos, quentes, encorpados e te mantém acordada toda a noite.

Primeiramente, deverá ser MANTÊM, com acento circunflexo no e. Depois, e principalmente, a colocação do pronome relativamente ao verbo. Nós, por cá (todos bem!), dizemos MANTÊM-TE.

*  Mulheres bonitas nos fazem comprar cerveja. Mulheres feias nos fazem beber cerveja.

A mesma observação da frase anterior: Diríamos FAZEM-NOS COMPRAR, FAZEM-NOS BEBER.

* Errar é humano, colocar a culpa em alguém é estratégico.

Parece-me que o COLOCAR é mais brasileiro, embora nós também o usemos. Mas preferimos o PÔR. Neste caso da CULPA  usamos também DEITAR.

*  Quando alguémTE JOGARuma pedra, seja diferente, JOGUE um tijolo!”

Parece-me que ATIRAR é mais do Português europeu.       E – é uma coisa que me faz… impressão… – aquilo de usar, na mesma frase, TU e VOCÊ: TE JOGAR e JOGUE. Faz-me… Dá-me… Não… Entendem-me, Senhores Passageiros e Companheiros da Tripulação?

*  “Dinheiro não traz felicidade, então DÊ O SEU PARA MIM!”

Julgo que nós, os Portugas, dizemos preferentemente DÊ-ME O SEU.

*  “Se um dia você olhar para o céu e não ver as estrelas ….. acorda o filho já amanheceu!!!”

Aqui não é erro brasileiro!!! Aqui é ERRO, é CAVALADA em qualquer parte do mundo onde se queira falar Português escorreito. Correto é SE… VOCÊ… NÃO VIR.

*Mulher com barba É IGUAL MULHER com decote, depois que você repara, você não consegue olhar em mais nada.

*Mulher feia é IGUAL POMBO correio, sempre volta pra casa.

Construção que me parece carateristicamente brasileira: Nós, por cá (continuamos todos bem, muito obrigado!) dizemos  É COMO, ou, vá lá, É IGUAL A MULHER, É IGUAL A POMBO. (Pelo Novo Acordo Ortográfico escreve-se POMBO-CORREIO, com hífen. Como antes do “tal” acordo, que tanto desacordo está a suscitar).

Vejamos, agora, alguns termos que ou não são usuais em português ou (me) são completamente desconhecidos:

* Imaginação fértil é quando você sonha que está TRANSANDO e acorda grávida.

TRANSAR já começa a ser bastante conhecido entre nós (e praticado, julgo que sem diferenças sensíveis entre as duas margens do Atlântico). CURTIR também já está a ganhar raízes entre o portuguesame.

“Em momentos de desespero ou angustia devemos estufar o peito, encarar a situação e dizer: ME LASQUEI!!!”

O Houaiss – brasileiro – só regista LASCAR como substantivo, a significar marinheiro nativo (regionalismo indiano)  e governador de cidade (também regionalismo indiano, de  Bengala). Só na INTERNET lhe encontrei o significado. E sempre lhes digo que coisas boas não são.  De resto, parece-me que o significado se intui com facilidade. O primeiro-ministro conhece-o  bem  e usa-o muito adequadamente. Mas isso não nacionaliza o verbo. Também me parece que não se trata de estufar (tem que ver com estufa) mas sim de estofar (tem que ver com estofo, acolchoar com estofo, encher). Em angustia também falta o acento no U: ANGÚSTIA).

*  Amigo que é amigo NA BALADA PEGA a feia e deixa a bonita pra você PEGAR.

Por outras frases da mesma coleção fiquei a intuir outro significado para BALADA: O Houaiss só me diz, praticamente, quase tudo o que eu já sabia. Estou em crer que esta BALADA significa PÂNDEGA, BRÓDIO, FORROBODÓ, FARRA.

*  Baseado nos olhares que recebo das BARANGAS, sei como se sentem as GATINHAS que eu olho.

GATA, GATINHA, GATÃO são palavras do Português informal, importadas, eu iria jurá-lo, dos nossos Irmãos do lado di lá. Boa importação, a das GATAS e GATINHAS.

Agora BARANGAS?!…

O imprescindível Porto Editora não regista.

Tenho de deitar mão ao Houaiss. É! A palavra é mesmo brasileira, regionalismo, de uso informal, pejorativo, significando de baixa qualidade; de pouco ou nenhum valor, e ainda (a piorar as coisas…) mulher feia, deselegante, mal-ajeitada, também de uso informal, pejorativo.

E pronto! Fico com a sensação de que fiquei muito loooooonge de esgotar o assunto e de que não o terei tratado da melhor maneira.

Mas, enfim,  quem dá o que tem…

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