POESIA AO AMANHECER – 3 – por Manuel Simões

José Craveirinha – Moçambique

(1922 – 2003)

                                            CÂNTICO A UM DEUS DE ALCATRÃO

Máquina começou trabalhar

com sol

 com chuva

 com farinha e feijão

máquina começou abrir chão.

 

Lua escondeu coração

 saiu ouro

 saiu pedra de lapidação

saiu barco cheio de máquina gente no porão

saiu notícia de menino morto boneco de carvão

saiu Cadillac novo de patrão.

 

Máquina começou trabalhar

com farinha de pilão

nasceu milho

nasceu machamba de feijão

nasceu máquina grande

nasceu pequenino deus de alcatrão.

Máquina começou trabalhar

máquina está trabalhar

até um dia enraivar

com farinha de pilão!…

(de “Xigubo”)

Filho de pai português e de mãe de etnia ronga. Considerado o maior poeta de Moçambique. Conheceu a prisão entre 1965 e 1969 pela sua ligação à Frelimo.

Obra poética: “Xigubo” (1964), “Karingana ua karingana” (1974), “Cela 1” (1980), “Maria” (1982) e “Babalaze das Hienas” (1992). Em 1991 tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões.

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